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Tudo passa

Quem criou a tradição da tapioca me passou o bastão quando se aposentou. Lá se vão dez anos. Morávamos na mesma rua, que tinha uma feira. Toda sexta-feira ela trazia duas tapiocas pra equipe de umas 8 pessoas. Sei disso porque a partilha dava uma tirinha de tapioca pra cada um. Eu não era desse grupo, então mal sabia da história. Mas enfim, quando ela se aposentou, por uma coincidência de CEP, acabei herdando a tradição da tapioca, e honrei-a porque já gosto de uma tradição. Os anos passaram, eu me mudei, mas o destino colocou outra feira no meu caminho. E a tradição sobreviveu. Dá até pra calcular a inflação acumulada do período. A tapioca passou de 1,50 para 4,00 em dez anos.

Às sextas-feiras minha chegada era aguardada e minhas ausências nunca passaram incólumes. Já deu confusão a partilha da tapioca. Cortei metade do fornecimento quando uma das tapiocas começou a ser privatizada. Depois comecei a diversificar alternando a tapioca com o bolo de milho que teve uma aceitação até maior do que a tapioca. O bolo de milho também foi ferramenta de bulling. Garantir a borda que fica tostada pelo contato com a forma, a chamada “bundinha” da fatia, já foi sinônimo de poder.
As pessoas são terríveis.
Era nesse dia q o papo no café demorava mais. A conversa avançava manhã a fora. O assunto alternava entre falar sacanagem e falar mal dos outros. Já falei q as pessoas são terríveis?
Mas o tempo, sempre ele, se encarregou de ir mudando as coisas. Uma a uma, as pessoas foram saindo. Não tínhamos mais uma confraria.  As que chegaram depois eram participantes eventuais, numa semana estavam, na outra não. Agora era uma relação aberta. Entramos na modernidade líquida.
Ultimamente, restavam apenas dois sócios-fundadores. Até que o PDI levou um deles embora, e a reestruturação levou o outro pra longe. Na última sexta-feira me dei conta de que passei direto pela barraca da tapioca. Depois de tantos anos, eu não vou mais parar ali.
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Crochê pra salvar alça de bolsa detonada

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Arroz belo, recatado e do lar

Então o almoço da reunião de família caiu no seu colo, e você não está nada a fim de gastar dinheiros alimentando o povo todo, certo? Te entendo, é a crise.

Faz arroz pra todo mundo, amiga-dona-de-casa! Enfeitando dá pra dizer que é arroz de forno. Ou nem coloca no forno e chama de risoto. Isso se não tiver nenhum aspirante a masterchef na família. Porque daí já entra o raio do arroz arbóreo e a sua economia vai pras cucuias.

Você só precisa de três coisas: o arroz, o frango e os enfeites.

O arroz é aquele branquinho só na cebola e alho de de todo dia.

O frango é aquela bandeja de 1 kg de filé de peito que sempre tem promoção no mercado. Bota aquilo na panela de pressão, não precisa nem descongelar, e joga todos os temperos da casa. TO-DOS. Isso é muito importante porque é aí que está a alma do seu arroz. Não poupe cebola, alho, pimentão, tomate, curry, pimenta-do-reino, salsa, cebolinha, louro, vinagre, enfim, o mundo. Só não coloque água demais, pra não virar sopa. A ideia é que ao término do cozimento, fique só um caldinho concentrado que vai servir pra umedecer e dar gosto no arroz. Daí deixa cozinhando na pressão o maior tempão, até que a carne se desmanche sozinha e você não tenha nem que desfiar.

Os enfeites são ervilha em lata, mussarela ralada, presunto picado e cenoura ralada e passada na água fervendo pra dar uma amolecida. Se bem que fazendo o arroz já com a cenoura, não precisa nem ter esse trabalho. Só agora pensei nisso.

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Daí mistura tudo e cobre com queijo ralado, ovo cozido, azeite e orégano.  Pode levar no forno pra dourar um pouquinho o queijo ralado. IMG_0676

Ou então aproveita que tá quente e come logo porque o queijo derrete de qualquer jeito.IMG_0678

E pronto. Mesmo na crise a família brasileira está alimentada e feliz. Porque esse risoto é de frango mas não é coxinha.

Lembranças gustativas

O pão italiano é duro, pesado, difícil de morder. O miolo é denso e a casca não se rompe facilmente. A mordida tem que ser com aqueles molares lá do fundo da boca.  Então, é esse o pão. Daí você abre e deixa no grill até fazer aquelas riscas douradas cruzando o miolo, bem tostado. Enquanto isso, pega o bife de filé que temperou só no sal grosso e tasca na frigideira bem quente com um nada de azeite. Se a frigideira não estiver muito quente, a carne acaba cozinhando ao invés de selar. E é pecado cozinhar filé mignon. Ele tem que ficar bem tostado por fora, mas rosa e úmido por dentro. Daí tira logo da panela e coloca em cima de uma banda do pão italiano. Aliás, assim que tirar o pão do grill, passa um fio de azeite sobre cada banda do pão. Aí sim, vem com o filé por cima de uma banda. Na outra banda vai mais azeite, uma generosa camada de cream cheese e a cebola que você dourou na frigideira com um pouco de molho inglês. Ele serve pra soltar aquele dourado que a carne deixou grudado e seu adocicado compensa o sal grosso do filé.

Dia desses um colega do trabalho lembrou do relato detalhado que eu tinha feito de um sanduiche de filé. Eu já nem lembrava mais desse sanduiche e sequer imaginava que ele marcaria assim a memória de alguém. Daí ressuscitei o sanduiche ontem e cá está ele, agora com imagem.

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O original tinha queijo gorgonzola no lugar do cream cheese, e a salada de rúcula tinha umas lascas de pêra bem maduras. Delícia.

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Enquanto tomava café da manhã com a Cau sábado passado, não sei sobre o que conversávamos quando ela engatou uma lembrança atrás da outra e acabou achando um veio de memórias muito antigas que nem ela própria sabia que ainda existiam. A infância, a casa sem luz, a mãe secando costela no sol por uma semana até ficar bem preta, o pai chegando de bicicleta com abacaxi, inhames e abóboras amarrados em cordas. Cada fatia de inhame cozido enchia um prato e era uma refeição completa. O abacaxi tinha que comer logo e cozinhava-se  feijão todos os dias, porque não tinha geladeira naquele tempo. Nem luz. O feijão, a propósito, era também sozinho uma refeição completa. Ia dentro dele toda sorte de legume que se conseguisse arranjar. Quanto melhor financeiramente fosse a condição da família, mais variados eram os legumes no feijão. Como a família da Cau era pobre mesmo nos padrões da caatinga pernambucana, no feijão da mãe dela ia ainda menos coisas do que no das vizinhas. Sempre que podia, ela compensava com minúsculos nacos que ia partindo daquela costela que secou ao sol. A cada panela de feijão, ia um pedacinho com mais osso e sebo do que carne propriamente. Mas isso era suficiente pra dar um sabor que a Cau nunca conseguiu reproduzir anos depois, com luz e geladeira já no sudeste. E roer o cotoco da costela era privilégio do patriarca. Nesse feijão, ela repetiu algumas vezes que lembrava da abóbora bem vermelha do tipo sergipana, e tinha também quiabo, um quiabo inteiro que ela nunca descobriu como que a mãe fazia pra tirar a baba. O quiabo ficava inteiro e sem baba. E não tinha muita coisa pra temperar, possivelmente só colorau. O tempero é outro mistério que a Cau nunca descobriu. Mas tinha um gosto que fez os olhos dela brilharem só de lembrar.

Daí que obviamente eu passei a semana toda com esse feijão na cabeça. Igual ao colega do trabalho que encasquetou com o meu sanduiche de filé, eu não tirei mais da cabeça o feijão da Cau. Aproveitei meio saco de feijão vermelho que estava há tempos esperando uma carne seca que eu nunca tinha disposição pra comprar, e foi com ele a minha livre adaptação do “feijão da infância da Cau”.

_ um pedaço de abóbora bem vermelha
– um chuchu
– meia cebola picada e meia cabeça de alho
– salsa, cebolinha, louro, sal, pimenta do reino e curry
– duas colheres de sopa de manteiga

Fiz um refogadão com isso aí e não coloquei água, só tampei a panela e deixei no fogo baixo.

O feijão vermelho amolece rápido. Bastou uma hora de molho e 15 minutos na pressão. Cozinhei ele junto com duas beterradas inteiras com casca e tudo e meia cebola também inteira. Passados os 15 minutos na pressão, ele não está totalmente cozido, mas esse é o ponto pra despejá-lo na panela dos legumes refogados, que também ainda estão duros. Separei as beterrabas pra comer tipo salada, fatiadas com azeite. O restante, deixei terminar de cozinhar junto.

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Na hora do almoço, adivinha? A Cau comeu e não lembrou de absolutamente nada da conversa de uma semana antes. Meu feijão não bateu nem na trave.

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Souvenir das eleições

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A Manta do Breaking Bad

Aleluia acabei!

Expectativa:

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Realidade:

20140817_100640Instruções aqui.

Minhas adaptações: Linha Anne – 3583 (coral) / 7684 (cru) / 7625 (marrom claro) / 7382 (marrom escuro)

Para uma manta com com 2,20m na diagonal:

Primeira parte: coral – 23 voltas / cru – 25 voltas / marrom claro – 10 voltas / marrom escuro – 6 voltas;

Segunda parte: coral – 8 voltas / cru – 12 voltas / marrom claro – 4 voltas / marrom escuro – 7 voltas

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O Bolo-bomba

Depois que a diretora mostrou o meu horário desse semestre, e descobri que fui alocada à revelia em mais duas escolas, e terei que trabalhar 4 noites pelo salário de duas, resolvi desistir dessa bagaça. Mas não sem antes dar trabalho pro Sérgio Cabral. Ele já deve estar sentindo o peso da minha ira. Estou super ativa nessa greve do Estado. Todos os dias entro no site do SEPE pra acompanhar as negociações e até fui numa assembleia, numa passeata e numa vigília na ALERJ. Ok, foi tudo no mesmo dia, e a minha vigília só durou até umas 8h da noite, depois fui pra casa ver Amor à Vida. Passei da idade de acampar, nem barraca eu tenho, e o Félix está o máximo.

Um efeito colateral da minha adesão à greve dos professores são as noites livres. Já até me matriculei num curso de inglês, cuja metade da mensalidade é generosamente paga pela minha santa empresa salve salve, o que só me faz odiar mais ainda o Sr. Sérgio Cabral que até hoje só me deu pau no lombo. Mas voltemos ao advento das minhas noites livres. Além do curso de inglês, ainda me sobra tempo pra ver o Félix, como já disse, e pra retomar minhas aventuras culinárias.

Na quarta-feira, remoendo meus pendores terroristar quanto ao Governador do Estado, achei essa receita, que não transcrevo por pura preguiça, mas segue a foto:

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Salivei com essa delícia revolucionária cheia de creme, chocolate, creme,  chocolate… Resolvi pôr mão à obra apesar dos meus sucessivos fracassos no território dos doces. Fiz só meia receita, pra tentar salvar minha cintura, e o problema talvez tenha começado aí. Devo ter errado alguma coisa nos complexos cálculos de dividir tudo ao meio. O meu recheio acabou ficando um mingau ralo.  Pelo menos endureceu depois de ficar na geladeira. Triste foi a cor do bolo. Ficou pálido por causa do chocolate em pó de bosta que eu comprei no Guanabara. Desde que resolvi fazer minhas compras de mês lá pra esticar o meu bolsa família, não encontro mais minhas marcas preferidas. Daí que a cor da massa ficou assim de burro quando foge.

IMG_1843 - Cópia(Foto da revista e foto do meu bolo: expectativa x realidade.)

Então, com esse chocolate em pó peba e um forno que é super alto ou nada, o coitado do bolo  ficou desbotado por dentro e queimado por fora. Daí, eu tive que raspar com a faca pra tirar a camada externa da massa. A pressão desse processo fez vazar o recheio ralo, e eu fiquei enxugando as bordas do bolo na tentativa de estancar o derramamento de recheio. Com tanta coisa dando errado, tratei de compensar na cobertura. Até derreti umas barras do meu chocolate meio amargo de estimação, misturei com o chocolate em pó fuleiro do Guanabara (pra acabar logo porque tenho pena de jogar fora) e com a sobra do recheio ralo. Deu certo. A cobertura está dos deuses e mal se nota que a massa é uma bosta.

Então, fica a dica: não há mal que não se cure com muita cobertura de chocolate. Vou cobrir o Sérgio Cabral de chocolate.

E assim terminamos mais essa odisseia culinária, amiguinhos.