Não saí do Facebook, mas também quero entrar pra história

20 de junho de 2013 foi o dia em que me meti a fazer a história. O pretexto era cuidar da minha irmã adolescente que encasquetou de fazer a história. Outros 300 mil tiveram a mesma ideia, todos na Av. Presidente Vargas disputando uma meia página nos livros didáticos das gerações futuras.

Meu modelito histórico era composto por um all star vermelho classe média subversiva, e uma camiseta da campanha “Rio eu amo eu cuido” mais pelega/burguesa impossível. A ideia era deixar claro para a polícia que não era pra bater em mim.

A festa estava linda ali em frente ao prédio do teleporto, com a banda tocando, gente puxando uns gritos de guerra bonitos – não é a Turquia, não é a Grécia, é o Brasil saindo da inércia – todo mundo pulando junto e chamando o pessoal do prédio: vem pra rua, vem! Era de arrepiar de tão bonito.

Apareceu gente com algumas bandeiras não identificadas, uma delas era do MST, as outras eu não sei. O povo da paz ficou nervoso e começou a gritar sem partido! sem partido! sem partido! e começou a confusão. Na verdade, as bandeiras não eram de partido político, mas de movimentos sociais organizados. Fiquei na dúvida: as pessoas não sabem a diferença entre uma coisa e outra ou são contra tudo mesmo?  Se são contra movimentos sociais organizados, o que pretendem então? Se não pode ter partido, nem a sociedade civil pode se organizar, então o que fazemos além de gritar pelas ruas?

Esse momento de reflexão profunda logo passou quando uma ardência sufocante entrou pelo meu nariz e boca.  Gás lacrimogêneo é um santo remédio pra crises existenciais. A gente esquece de querer entender o sentido das coisas e fica imensamente feliz quando consegue voltar a respirar. Respirar é tão bom!

Achei uma pracinha ali perto da estação da Praça Onze que parecia o paraíso perdido. Ainda tinha até crianças brincando na gangorra. Tivemos uns 15 minutos de paz quando voltou a correria. Os descamisados de cara tampada vinham quebrando tudo, e a polícia atrás jogando bomba de gás. Hora de agarrar a garrafa de vinagre e correr novamente, sempre entoando o mantra: putaqueoparel, não tenho mais idade pra isso! Emburacamos numas ruas ainda vazias ali por trás do balança-mas-não-cai. Achamos até um mercadinho aberto e aproveitamos pra comprar mais água, já que não dava pra passar vinagre nos olhos.

Vontade voltar pro meu sofá, ver aquelas tomadas aéreas lindas pela televisão… Mas bora fazer história! Voltamos pra Pres. Vargas, na esquina com o Campo de Santana onde o pessoal cobria as grades com cartazes. Uma chuva de cartazes abraçava o Campo de Santana. Ali pudemos acompanhar a passeata super na paz até a altura da Av. Passos. Subimos numa mureta da estação do metrô  que estava fechada e tivemos uma visão privilegiada da multidão sem fim. Um mar de gente até onde a vista alcançava. A visão era tão privilegiada que pudemos ver vários focos de confusão, gente correndo, e os descamisados com as caras tampadas quebrando um ponto de ônibus, arrancando uns ferros e saindo pelo meio do povo procurando confusão. Hora de fugir novamente. Putaqueoparel, não tenho mais idade pra isso!

Bem, não vou me estender nesse relato porque a essa altura dos acontecimentos vocês já entenderam a dinâmica da coisa, né? Foge prum lado, gás. Foge pro outro, gás também. O alívio só veio quando consegui pegar o mêtro depois de cruzar a Central do Brasil que mais parecia uma praça de guerra. Mas a paz durou pouco. Na estação do Largo do Machado a coisa tava feia. Um guardinha do metrô fechou o portão de saída dali da praça e a gente ficou preso do lado de dentro. O pessoal que ficou do lado de fora estava muito nervoso. Acho que eles também estavam fugindo da confusão na Rua das Laranjeiras e deram de cara com a grade fechada. Daí, queriam derrubar. Xingavam o guardinha de tudo e diziam que era por causa dessas coisas que eles estavam ali protestando. Pronto, agora o alvo dos protestos era o pobre do guardinha do metrô. Tive pena dele. O pessoal da paz resolveu elegê-lo pra Cristo. O guardinha virou a personificação de tudo-isso-que-está-aí que todo mundo é contra. Quando a classe média resolve se revoltar, são os pobres que pagam a conta. Tive um ímpeto de sair em defesa do guardinha, mas minha cabeça latejava de dor. A enxaqueca derrotou a história. Fiquei calada.

Cheguei em casa e respirei fundo de alívio. Foi quando senti uma ardência tomando o meu nariz e boca… Era o gás lacrimogêneo entrando pela minha cozinha! Tinha uma manifestação tentando chegar no palácio do governo. Fechei a casa toda e fiquei lá ouvindo a gritaria e o barulho das bombas de gás. Era a história batendo na minha porta.

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