Quatro mocinhas elegantes

Em meia hora já estava com a barriga ardendo do sol. Foi quando resolvi virar de bruços. O Pão de Açucar ficou num enquadramento perfeito. No rés-do-chão, eu percorria com os olhos os montinhos de areia que se estendiam até a irrequieta lâmina d´água que ia e vinha na marola.  E ao fundo, o majestoso Pão de Açucar com seu bondinhos cruzando o céu.

Foi quando duas senhoras cravaram suas cadeiras há menos de 3 metros da minha canga linda da Richards, numa diagonal perfeita para deixar à vista apenas o topo do Pão de Açucar, de onde deslizavam os bondinhos até sumirem por detrás daqueles corpos estranhos. Estranhos no sentido de intrusos, que fique claro. Não estou aqui para fazer bullying com a estética da terceira idade. Aliás, elas eram bem bronzeadas, o que lhes conferia uma certa jovialidade apesar da pele já pendendo do corpo. As duas de biquini, muitíssimo bem resolvidas com suas peles pendentes. Bronzeadas, de biquini e com baldinhos. Vez por outra, uma delas ia até a água, curvava-se, enchia o baldinho, e despejava sobre o corpo.

Comentavam sobre o clima com muita propriedade. Sabem que esse sol só vai durar até amanhã. No fim de domingo já vem chuva novamente. Depois o sol volta na quarta-feira. Mas ela não virá à praia porque já marcou com o pedreiro, que precisa do sol pra fazer a obra no telhado. Era pra ele ter feito ontem, mas com a chuva os planos acabaram adiados até a quarta-feira. Bendito Climatempo que organiza a agenda das pessoas. As duas falavam do Climatempo cheias de intimidade. Daí engataram a falar da filha da fulana que elas acabaram de avistar na praia.

Como engordou essa menina!

– Ah, depois do filho, nunca mais voltou ao que era. Não se livrou mais daquela barriga.

– Tá com cada coxão também. E peitão. Toda grande… Como é que pode, né menina?

Coitada.

– Eu já avisei pro meu filho que é pra eles terem um filho só. Foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida. Mas ele reclama. Diz que é ruim ser filho único, não ter irmãos. Ele e a mulher querem ter pelo menos dois. Eu já avisei que com dois você não consegue dar tudo o que você daria se tivesse só um. Mas ele não me escuta. Depois a mulher dele vai ficar assim, igual essa menina. Aí quero ver ele vir reclamar.

A pobre da menina só saiu da berlinda das duas beldades, que aliás também ostentavam uma considerável protuberância abdominal, quando chegou uma terceira amiga. Essa era ainda mais bronzeada e já chegou reclamando da posição das cadeiras que a obrigaria a virar a cabeça pro lado direito pra conversar. E ela não podia virar pra esse lado. As outras duas levantaram, o Pão de Açucar sumiu de vez, e começou o remanejamento das cadeiras a fim de acomodar a recém chegada.

As três levantavam vez por outra e ficavam de frente pras cadeiras, batendo papo de costas pro sol. Acho que é assim que elas brozeiam a parte de trás.

Agora adeus Morro da Urca, chegou uma quarta senhorinha. Essa não era bronzeada como as outras. Foi logo instalando a sua cadeira e abrindo um guarda sol. Estava explicada a brancura, essa era a única que usava guarda sol. A Miriam. Ela também falava meio enrolado, parecia que tinha alguma coisa na boca.

As duas primeiras saíram e eu não as vi mais. Ficaram só essas duas últimas batendo papo.  Márcia e Miriam. Daí veio a vendedora de mate, uma senhora negra, com a pele muito curtida do sol e uma bunda imensa. Se tivesse mulher fruta no tempo dela, essa seria a precursora da Melancia. Já foi poderosa essa velhinha. A vendedora de mate também conhecia a panelinha das senhoras bronzeadas, e também gostava duma conversa fiada:

– Amanhã a praia vai esvaziar cedo por causa do jogo.

– E também porque vai chover, que deu no Climatempo.

– Tava fazendo as contas de quantas parcelas o pobre vai ter que fazer pra ir nesse jogo. Trezentos reais um ingresso é um absurdo! Tenho um parente no Espírito Santo que é louco pelo Maracanã. Ele vem de van com um pessoal aí. Tem muita gente doida no mundo né? Trezentos reais pra ver futebol…

Assim que a velha do mate saiu, as duas emendaram

Se fosse mil tudo bem, mas trezentos até que não é tanto…

Miriam se queixou do dente, parece que ela está fazendo algum tratamento, o que explica aquela fala enrolada. Márcia então comentou aliviada que não tinha mais esse problema, ainda mais na arcada de baixo que é pior pra tudo. A cicatrização na arcada de baixo é pior porque tem a saliva. Márcia tem uma história muito impressionante, uma verdadeira odisséia odontológica. Começou a contar que a gengiva dela necrosou por causa do cigarro, ela fez vários exertos, teve que ficar sete dias sem fumar pra fazer o implante da prótese, eram seis pinos, mas ela estava louca pra fumar. No quarto dia já não aguentava mais, o marido pressionando dizendo que ela não podia fumar. Daí ela surtou, ligou pra dentista, disse que ninguém mandava nela e que era pra cancelar tudo porque ela ia fumar. A Dra. Mônica teve mais psicologia que o marido, não disse que ela “não pode” fumar. Aí ela se acalmou. A médica mandou ela beber uma água gelada, acender um cigarro e só cheirar a fumaça. Mas ela não ia estragar cigarro só pra cheirar. Não acendeu foi nada e passou os sete dias sem fumar. Ela se achava realmente muito forte por causa disso. Daí resolveu contar os detalhes da cirurgia. O médico ficou impressionado com o estado da gengiva dela. Queria até tirar foto pra mostrar pros alunos na faculdade. Quando ele extraiu um dente específico lá, ela sabia qual era só pelo cheiro que subiu na mesma hora.

Nessa hora eu levantei, dobrei a minha canga e saí antes do final da frase.

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