João Kopke e o Capitão Nascimento

João Kopke foi a primeira escola que eu dei aula no Estado. Eu tinha medo dos alunos. Nunca briguei, nunca levantei a voz, simplifiquei a matéria de forma quase criminosa.

A escola não tinha semana de provas. A avaliação ia da cabeça de cada professor. Acho que a maioria acabava levando os alunos a base de trabalhinhos, porque quando anunciei que daria prova, foi um protesto geral. Causou-me assombro aquele fenômeno social: alunos indignados por fazer prova. Quando anunciei que seria individual e sem consulta, o mundo desabou.

Temendo retaliações, cuidei para que o nível de dificuldade da prova tendesse a zero. No dia D, cheguei na sala e encontrei as mesas todas juntas, misturadas. Os alunos se embolavam em ninhos. Não tive coragem de mexer com eles a esse ponto. Deixei todos onde estavam e distribuí a prova. Mas fiquei zanzando pela sala, fazendo cara de fiscal de concurso público. Foi quando chegou uma aluna atrasada e, ao saber que era o dia da prova, protestou:

– Mas eu não sei nada! Como é que fica então?! Ela realmente esperava que eu resolvesse o problema. Era como se o problema fosse meu. Fiquei quieta, apesar da grande variedades de respostas cretinas que me vieram à mente.

De toda forma, o problema era meu sim. Por mais simples que tenha sido a matéria, e por mais fácil que tenha sido a prova, foi um festival de notas abaixo de 5. As pessoas não leem os enunciados. Marcam X em questão de Verdadeiro e Falso. Ou simplesmente não leem nada, e deixam em branco questões de múltipla escolha. Ou ainda, não aparecem nas aulas, e sequer sabem de que matéria se trata. Até o final do ano eu ainda respondia ” meu nome é Claudia e a matéria é Sociologia”.

Apelei para os trabalhos feitos em aula, em grupo, com consulta e para os famigerados pontos de participação que, aliás, viraram direito adquirido. Ai do professor que não desse ponto de participação.  Qual o critério para ganhar o ponto de participação? Sinceramente, acho que o critério era rigorosíssimo para não dá-lo. Se você matasse alguém, talvez perdesse o ponto de participação.

Mas, afinal, por que essa torrente de lembranças da minha primeira escola?  Hoje saiu n’O Globo uma matéria falando que a diretora da escola João Kopke foi espancada por um aluno. Essa é a diretora do dia, quando a escola é municipal. Depois, esses alunos vinham para as minhas mãos à noite, no colégio estadual de mesmo nome.

O interessante dessa matéria é que ela mostra o lado do aluno, que cresceu defendendo a mãe das agressões do pai. É interessante mas não resolve o dilema. O aluno vem de uma realidade selvagem e leva essa selvageria para a escola. Não é culpa dele. É do sistema. Mas, do outro lado do front, esse mesmo sistema coloca apenas o professor, sozinho, em minoria de quarenta pra um. Na rede municipal, as diretoras são famosas por sua potência vocal. É no grito que elas seguram os alunos. Desse lado do sistema, ganha mais respeito quem berra mais alto. Isso é feio, mas vá lá você encarar a turba? É difícil não fazer a mesma coisa. Depois, quando esses alunos chegam no Estado, os gritos diminuem, mas começa a farsa. Na rede noturna, o que se ensina é basicamente reforço do Ensino Fundamental, e não a grade curricular do Ensino Médio de fato.

Afinal, o sistema empurra os alunos ainda semianalfabetos para o Ensino Médio. E quem vai negar-lhes o diploma que virou requisito até para as funções mais elementares?

Como bem disse o Capitão Nascimento, o sistema é foda, parceiro…

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