O custo do que não tem preço

Você tem 33 anos e uma dor crônica. O que você está fazendo com a sua vida?

Saí do consultório, os exames debaixo do braço, e fiquei vagando pelo shopping até dar a hora de ir pro outro emprego. Aproveitei que tenho dooois empregos (como o pai do Chris), e tomei um frapê todo chique enquanto pensava no que estou fazendo com a minha vida. Pensei no custo dessa dupla jornada,  na dor, e no quanto fui me adaptando e fingindo naturalidade. Me perguntei do que exatamente estou abrindo mão, em nome da estabilidade de dois empregos públicos.

Como 4/5 da minha renda estão concentrados num emprego, o que está na berlinda é o outro: o magistério. Então, se eu não desse aula à noite, eu:

– compraria mais verduras;

– faria suco de frutas de verdade;

– pegaria receitas na internet pra fazer em casa, principalmente as da La Cucinetta;

– passearia pelas lojas de tecidos procurando estampas bonitas, pra depois pensar no que fazer com elas na máquina de costura;

– faria ioga e alguma outra coisa (luta ou dança ou hidroginástica ou aqueles circuitos de academia ao ar livre)

– iria ao cinema no meio da semana.

Além disso, largando o magistério eu não teria mais que:

– odiar os governadores eleitos, todos eles;

– preencher os diários de classe;

– corrigir provas e trabalhos;

– preencher as notas e as faltas na planilha da escola e no sistema que a secretaria de educação inventou, turma por turma, aluno por aluno;

– fazer um curso boçal de EAD que a secretaria de educação impôs para que eu possa continuar a dar aula nas minhas turmas;

-aturar as diretoras dos colégios me ligando no celular e no fixo, me caçando porque eu não fui no COC, porque eu não preenchi a planilha tal, porque eu não me apresentei na escola na data x, porque eu não preenchi o formulário y.

– aturar alunos mal educados de um lado ou zumbis do outro;

– chegar em casa sem voz, com dor de cabeça, exausta como se tivesse virado uma laje, porque a aula foi uma bosta.

Por que raios, então, eu não abri mão do Estado até hoje?

Porque às vezes a aula é tão boa, mas tão boa, que eu chego em casa elétrica, eufórica, mesmo depois de uma jornada de 12h.

Porque tem aluno que me procura no corredor da escola pra dizer que gostou muito da aula.

Porque às vezes, muito de vez em quando, no ano seguinte um aluno lembra de algo que falei no ano anterior.

Porque às vezes eu planejo uma coisa, mas a aula flui por outros caminhos, e quando me dou conta, estou aprendendo ao invés de ensinar.

Porque alguns alunos me admiram, me chamam de senhora, e falam comigo como se eu fosse grande coisa.

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Uma resposta para “O custo do que não tem preço

  1. o único denominador comum na história toda é: é preciso mudar. ainda que vc permaneça na jornada dupla, é preciso mudar. se vc não se sente capaz de abandonar o magistério, não apenas pelos itens que citou, mas também em virtude de todo o simbolismo que ele carrega (a valorização da sua formação, o “pagamento” pelo perrengue de se graduar), alguma coisa terá de mudar. tipo, encarar o que não tem remédio de um jeito mais prático e não sofrer tanto e se irritar tanto com a rotina. algo na linha “vestir a camisa” do sou corna sim e vou vivendo. sem sofrer, de preferência.

    ninguém disse que a vida é fácil, ne amiga.

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