Portugal

Brasil, voltei.

A viagem foi cheia de imprevistos, como deve ser. Logo de cara, nos rebelamos contra o valor abusivo do seguro que a Europcar resolveu cobrar em cima da hora e decidimos, ali mesmo no balcão da empresa em Lisboa, abolir o plano de viajar de carro pelo país. Foi assim que cancelamos a reserva do carro e saímos da loja com as malas nas mãos, diretamente para o ponto de ônibus em frente, completamente perdidos. Começava aí nossa história de amor com os transportes públicos portugueses. Abraçamos os trens, os bondes, os ônibus e as orientações confusas dos portugueses. Acabamos a nos locomover lindamente batendo cabeça pelas terras lusitanas, passando por Lisboa, Sintra, Évora, Reguengos de Monsaraz, Porto, Aveiro e de volta pra Lisboa.

Vários brasileiros nos salvaram pelo caminho. Uma senhora do Maranhão que econtramos no ônibus nos ajudou a pegar o trem pra Sintra. Ela está em Portugal cuidando de uma velhinha desde 2005 e não quer saber do Brasil nem pintado de ouro. A qualidade de vida que ela tem lá, talvez em mais 500 anos chegue por aqui. Uma vida sem engarrafamentos, sem hora do rush, sem atrasos e sem superlotação. Isso porque eles estão em crise. A gente ainda precisa melhorar muito pra viver como um europeu em crise.

Um jovem paraibano que trabalha num pequeno restaurante perto das muralhas do Castelo de São Jorge nos apresentou a ginjinha. Esse garoto estava há apenas 10 meses lá e não via a hora de voltar. Me pareceu meio triste. Vai ver está ilegal. Deve estar comendo o pão que o diabo amassou na mão daquele espanhol dono do restaurante. O espanhol foi muito solícito conosco, mas não me convenceu. Não é bom confiar em espanhóis. Eles gostam de nos deportar.

No ônibus pra Évora, conhecemos um casal da Bahia e graças a eles conseguimos chegar na Pensão Policarpo. Além de nos guiar até lá, eles marcaram um encontro conosco para aquela noite e nos apresentaram a um outro casal de brasileiros,  ela pernambucana e ele fluminense, num bar muito legal. Foi uma longa noite, regada a muito riso e um delicioso vinho da casa. Aliás, voltando aos espanhóis, nosso amigo baiano tem trauma da Espanha também! Parece que ele foi comer uma paella lá, e serviram uma miséria com racionamento de camarões:

– Peça paella em qualquer lugar do mundo, menos na Espanha! Repetia ele a noite toda.

Minha pinimba com os espanhóis está justificada, viram?! Já era madrugada quando saímos do bar com nossos novos amigos e o papo continuou pelas ruas completamente desertas. Foi quando apareceram as colunas do Templo de Diana envoltas em bruma que emudecemos. Aquela foi a melhor noite que tivemos em Portugal.

De Lisboa, guardo o colorido dos azulejos;

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a presteza do bonde 28, nosso companheiro de todas as horas;

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e o lindo emaranhado de becos e escadarias do bairro de Alfama, onde nos hospedamos.

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Nos perdemos e nos achamos todo o tempo pelas vielas de Alfama. E sempre acabamos por topar com o nosso beco, o Beco dos Paus, de uma forma ou de outra. Perder-se faz parte do processo nessa pitoresca freguesia. Aliás, esse é realmente um bairro muito especial. Tem hobbits morando lá.

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De Évora, apesar da atração mais famosa da cidade…

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… o que guardo mesmo é a lembrança daquela noite sem fotos no Templo de Diana.

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De Sintra, me encontrei na sala dos Brasões, construída pelo Rei D. Manoel I que reinou de 1495 a 1521. Lá estão os 72 brasões das famílias mais nobres de Portugal. Todos nós, nobres brasileiros que somos, estamos lá, amigos! Olha aí o pedigree dos Silva:

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Já conhecedora do poder do meu brasão, tratei de me portar à altura na cidade do Porto. Me hospedei num castelo.  DSC03573

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Bati perna pelos principais cartões postais da cidade, mas o detalhe que me encantou foi a coleção Chá com Alice, na vitrine das Porcelanas Vista Alegre: DSC03590

Corri pra internet e descobri que a fábrica ficava lá perto, em Aveiro, e consegui marcar uma visita guiada! No dia seguinte, lá estávamos nós na fábrica dos sonhos. A história é incrível, nasceu do sonho de um socialista utópico, José Ferreira Pinto Bastos, em 1812 e sobrevive até hoje, empregando várias gerações de artesãos das mesmas famílias, que moram em lindas casas no bairro da Vista Alegre. Tem estudantes do mundo todo na fábrica. Conhecemos um carioca, aluno de Belas Artes da PUC, que está lá fazendo intercâmbio. No meio da visita, uma artesã parou uma guirlanda de flores que estava fazendo para uma escultura, fez uma florzinha minúscula e me deu com barro ainda mole. A partir daí, a viagem ganhou um novo desafio: garantir que ela chegasse inteira ao Brasil. Marido escavou uma rolha de vinho e encaixamos a flor. E olha ela aqui inteirinha nos trópicos!
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E fim.

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Uma resposta para “Portugal

  1. esse bairro em que ficou parece desses lugares nos quais é possível se visualizar mais que visitando: morando.

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