Considerações sobre Salvador

… e os soteropolitanos.

Do alto dos meus 5 dias de experiência etnográfica, seguem as minhas mui relevantes observações.

1 – Eles ignoram filas. Se cariocas não gostam de sinal fechado, a pinimba lá é com as filas. Quando uma porta se abre, não há quem segure um soteropolitano na fila.

2 – Eles devem sofrer de surdez coletiva, porque ouvem música em volumes carnavalescos o ano todo. É que tem uns camelôs vendendo café em carrinhos que só existem lá. Não existem dois iguais porque a produção é artesanal. São mini trios elétricos que, apesar do tamanho, fazem um barulho colossal.

  Fotos roubadas do Google.

Em qualquer rua, praça, ponto de ônibus, as pessoas estão no clima do carnaval graças ao barulho produzido por esses carrinhos. No começo estava achando linda aquela overdose de axé, mas depois de algum tempo, já não aguentava mais tantos decibéis de baianidade.

3 – Eles amam ACM. Em todo lugar se encontram plaquinhas homenageando ou agradecendo alguma “generosidade” desse filantropo. Mas se os paulistas tem o Maluf, porque os soteropolitanos não podem também ter o seu bom tirano?

4 – Eles estão desempregados. Ouvi dizer que Salvador tem 3 milhões de habitantes, e 500 mil desempregados. Como não tem indústria, só resta o turismo.  Daí, o turistas vira um cifrão ambulante, e o assédio é  no estilo daquelas ciganas que te agarram pelo braço na rua. Isso, antes de ser irritante, é triste. Mazelas de uma cidade partida. As pessoas são pobres, muito pobres.

Mas se falta dinheiro, sobra talento. Vamos às coisas boas dos soteropolitanos!

1 – Eles têm uma veia artística muito forte. Terra de Castro Alves, Jorge Amado, Dorival Caymmi, Gil, Caetano e por aí vai, não podia ser diferente. A produção cultural é um portento. Como no começo tinha medo de sair à noite, fiquei no hotel assistindo TV. Assim encontrei um programa da TVE local que mostrava a agenda cultural da cidade. Muitas peças em cartaz, coisas muito boas e muito baratas. Nada passava de R$30,00 a inteira. Queria muito ter visto pelo menos umas 3. Mas só deu tempo de ir em uma, Amor Barato, e foi incrível!

Uma releitura pra lá de subversiva da fábula O casamento da dona baratinha numa lindíssima produção totalmente musical. Inacreditável foi o preço. Grande elenco de atores que também eram cantores e bailarinos; acompanhamento de piano, guitarra e bateria feito por músicos posicionados estrategicamente no cenário;  iluminação, cenário e figurinos irretocáveis: tudo isso sabe por quanto? R$20,00 a inteira! Só mesmo em Salvador. Já vi tanta coisa bem mais-ou-menos aqui no Rio na casa dos R$100,00…

2 – Eles são íntimos da Ivete Sangalo. Todo mundo sabe onde ela mora. A casa de Ivete (leia-se com sotaque baiano) está no caminho dos soteropolitanos. Tudo é perto da casa da Ivete, antes da casa da Ivete, depois da casa da Ivete, tipo “você desce do ônibus no segundo ponto passando da casa de Ivete“. Também pudera, ao contrário das celebridades que normalmente se escondem do povo buscando a tal privacidade, Ivete mora no prédio mais alto da região mais central de Salvador. É caminho pra tudo. Tem um trio elétrico cuja concentração é na porta da digníssima. Eles a esperam descer, e aí começam a folia. A mulher está na boca e nos braços do povo. Se ela se candidatasse a sucessão da Dilma, ganharia fácil. Poderosa!

3 – Eles não tem problemas para dormir. Eles dormem que é uma beleza em qualquer lugar. Mesmo com aqueles estridentes carrinhos de som pelas ruas, eles conseguem simplesmente apagar. Pierre Verger na década de 50 já havia reparado esse hábito local.

Hoje não mudou muito.  Foto daqui.

4 – Eles têm sangue nas veias e pelo nas ventas. Ainda está lá, latente até hoje, o gene das revoltas que marcaram a história. No teatro já tive uma prévia do olhar mordaz dos baianos. Depois, num desses telejornais locais que escorrem sangue, estavam mostrando o caso de um cara que morreu atingido pela roda de um ônibus que se soltou. O povo estava inflamadíssimo espraguejando contra as elites: Isso é culpa dos donos das empresas de ônibus! Achei lindo.

5 – A cidade é negra! Preta, preta, pretinha. Posso estar enganada, mas me pareceu que em Salvador ser negro não é ter a “cor errada” como no resto do país. Existe uma cultura, uma estética negra que se impõe, sobressai, transborda. Está presente na culinária, na música, na religião, em tudo. A cidade abraça o candomblé como em nenhum outro lugar no Brasil (aleluia! rs). Mas isso não é por acaso. Pierre Verger explica, no livro Fluxos e Refluxos, o fenômeno da consolidação de uma sociedade africana na Bahia e de uma sociedade brasileira no Benin. Agora até me empolguei pra ler esse livro que repousa amarelado na estante desde a época de estudante do marido.

Chega de Sociologia de botequim, vamos ao turismo.

Fui a vários museus, e dei com a cara na porta em boa parte deles. O Museu casa de Jorge Amado estava fechado. O Museu da Cidade, logo ao lado, também. O Museus do Benin também. O Forte São Marcelo idem.

Dos que estavam abertos, vamos aos que importam:

– Museu da Ordem Terceira de São Francisco – Maravilhoso. Barroco em estado puro. 

Ao lado tem a igreja da Ordem Terceira do Carmo, linda também.

– Catedral Basílica de Salvador – Monumental. Ficou pronta em 1672 e está perfeita até hoje, como se tivesse acabado de ser construída, graças ao revestimento todo em pedra Lioz. 

Essas igrejas valem horas de contemplação. Depois fui também no Museu de Arte da Bahia, no Museu Geológico, e em alguns outros que eu não lembro os nomes.

Fiz a visita obrigatória à Igreja do Bonfim, mas achei só ok. E o museu dos votos que tem lá é deprimente demais, não tive estômago pra ficar vendo aquelas fotos de vísceras e feridas.

Gostei da profusão de fitinhas amarradas por toda parte. 

Fique hospedada no Hotel Chile, um sobrado muito simples onde morou por 4 anos o fotógrafo e etnógrafo Pierre Verger. Ele afirmava que se mataria antes dos 40 anos porque não queria ser velho, mas chegou na Bahia e resolveu viver até os 94 anos. Também visitei a fundação que leva o nome dele. O hotel é simples e muito central, ao lado do elevador Lacerda. E o meu quarto tinha varandinha e essa vista maravilhosa da Baía de Todos os Santos. 

Tive a infeliz ideia de ir para Morro de São Paulo. O lugar é o paraíso na terra, mas chegar e sair de lá é um inferno de Dante. Principalmente se você for no catamarã da Bio Tur. Eles enganam bem, fazem parecer que têm o melhor catamarã, mas é uma bomba! O bicho não tem janelas, tipo metrô, mas o ar condicionado que vendem na propaganda é pura ficção. Então, 130 seres humanos são transportados como bagagem numa viagem de 2h30 de duração sem janela e sem ar! É deprimente, sufocante, todo mundo passando mal, se revezando para pegar um pouco de vento nas duas portinholas laterais que ficaram com a parte de cima aberta para fazer de janela.  Depois, retornavam aos seus lugares e a sensação térmica piorava devido ao contraste entre o vento do mar e o calor interno da embarcação. Descobri que teve gente que já passou coisa ainda pior. Vou ver se processo, se denuncio pra Capitania dos Portos, sei lá. As poucas horas que consegui usufruir da ilha não compensaram o suplício da viagem, mas serviram de consolo, pelo menos. Praias quase desertas, rasas, de águas mornas e vegetação exuberante.    

Uma resposta para “Considerações sobre Salvador

  1. ficou linda a foto na varanda.

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