O romance do tempo

Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si? Não, isso seria deveras uma empresa tola. Uma história que rezasse: “O tempo decorria, escoava-se, seguia o seu curso” e assim por diante – nenhum homem de espírito são poderia considerá-la história. Seria como se alguém tivesse a ideia maluca de manter durante uma hora um e mesmo tom ou acorde e afirmasse ser isso música. Pois a narrativa se parece com a música no sentido de que ambas dão um conteúdo ao tempo; “enchem-no de uma forma decente”, “assinalam-no” e fazem com que ele “tenha algum valor próprio” e que “nele aconteça alguma coisa” (…)

(…) Era capaz de ficar sentado com o relógio na mão – o relógio da algibeira, chato, liso e de ouro fino, cuja tampa com o monograma gravado estava aberta. Contemplava então o mostrador redondo, de porcelana, rodeado por uma dupla fileira de cifras árabes, pretas e vermelhas, e em cima do qual os dois ponteiros de ouro, enfeitados de suntuosos arabescos, apontavam em diferentes direções, enquanto o delgado ponteiro dos segundos, tiquetaqueando, dava pressurosas voltas à sua areazinha especial. Hans Castorp fixava-o, como para deter e esticar alguns minutos, na intenção de agarrar o tempo pela cauda. A minúscula agulha saltitava pelo seu caminho, sem se importar com as cifras que alcançava, percorria, ultrapassava, deixava longe atrás, voltava a demandar e alcançar de novo. Era insensível a objetivos, divisões e marcos. Deveria demorar-se por um instante no 60 ou pelo menos dar um pequeno sinal de que alguma coisa terminava ali. Mas, pelo jeito como passava por cima desses pontos como por qualquer outra risca não marcada, reconhecia-se que toda essa marcação e subdivisão do seu caminho era apenas acessória, e que o ponteiro se limitava a caminhar, a caminhar para a frente… Diante dessa decepção, Hans Castorp tornava a abrigar o cronômetro no bolsinho do colete e abandonava o tempo à sua própria sorte.

(…) Caminhamos, caminhamos… Desde quando? Até onde? Tudo incerto. Nada se modifica, por mais que avancemos. O “ali” é igual ao “aqui’, o passado é idêntico ao presente e ao futuro. Na imensa monotonia do espaço afoga-se o tempo. Onde reina a uniformidade, o movimento de um ponto a outro deixa de ser movimento. Onde isso acontece, já não existe o tempo.

A Montanha Mágica, Thomas Mann.

Cada página desse livro precisa ser lida umas três vezes. Ainda mais quando você se flagra dormindo acordado enquanto lê, como tem acontecido comigo. Então, volto algumas páginas e acabo me deparando com trechos lindos assim, que a todo momento  me escapam e, alguns, tenho a sorte de resgatar.

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