Deixo a vida para entrar na história

Vi minha vida inteira passar num filminho diante dos meus olhos, depois vi um túnel e uma luz no final. Mas sobrevivi e estou aqui para contar essa experiência de quase-morte.

Foi nesse sábado, numa visita ao Palácio do Catete com a minha família. Primeiramente, tenho a dizer que o museu é belíssimo, apoteótico, salve, salve! Vão no Google pra ver as fotos. Dito isso, passemos aos fatos.

Ainda estava no segundo salão quando meus pais dispararam na frente e sumiram, não sei que fim levaram aqueles dois adolescentes apressados. Pois bem, ficamos minha irmã e eu namorando cada rococó daquelas paredes suntuosas, os afrescos, os lustres, os móveis, os quadros, o chão marchetado.

Chegamos no salão de banquete. Temas de caça enfeitavam as paredes e o teto. Animaizinhos mortos pra todo lado. Uma beleza.

 (foto daqui)

Tinha uma cristaleira de 3 metros de altura na extremidade do salão que não aparece na foto. Foi então que minha irmã notou a porta da cristaleira se mexendo sozinha, e já me olhou com aquela cara de espírita-pseudo-atéia com medo de assombração, ou melhor, fenômenos físicos. Toda trabalhada na fantasmagoria do Fantástico, a pôia aqui resolveu testar a origem da misteriosa vibração da porta.

Cheguei perto da cristaleira, prendi a respiração, me posicionei, concentrei, e… dei um pulinho. Foi só um pulinho. Mas o assoalho transmitiu em ondas crescentes o meu sutil movimento que reverberou pela sala inteira. Senti os olhos da guardinha perfurarem a minha nuca. As taças da mesa e os cristais do lustre tilintaram. A cristaleira descreveu um movimento pendular para frente, projetando-se sobre as nossas cabeças. Imediatamente, pus-me a calcular a trajetória da tragédia: antes de nos esmagar, a cristaleira arrastaria consigo o lustre colossal, ambos cairiam numa ponta da mesa, o que elevaria a outra ponta num efeito gangorra, e esta, por sua vez, faria deslizar o aparelho de jantar e, ao término da trajetória ascendente, se chocaria com o outro lustre colossal da extremidade oposta do salão, destruindo assim absolutamente todo o ambiente em aproximadamente 5 segundos. Não acompanhou? Eu desenho:

Na parada seguinte, que foi o quarto onde Getúlio Vargas se matou, senti uma empatia genuína por aquele pobre homem.

Eu também quase deixei a vida para entrar na história.

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