Bananal e as histórias do tempo do café

Já tem dois anos que fiz essa viagem e as memórias começam a se apagar. Na verdade, poucas são as memórias que ainda consigo guardar depois desse tempo. Isso é uma pena, porque foi uma viagem muito especial. Costumo comentar com marido que ali nós fizemos um turismo de gente, turismo humano. Cada pessoa que a gente conheceu devia ser tombada pelo patrimônio histórico junto com as construções.

Bananal fica no estado de São Paulo, mas bem na divisa com o Rio. Lá todo mundo se conhece e adora conversar, contar suas histórias. Eles preservam as memórias da família, dos antepassados, como eu nunca tinha visto em outro lugar. Trata-se de um fenômeno coletivo. A cidade toda é assim. É uma cidade histórica principalmente pela sua população. As pessoas respiram História.

A farmácia mais antiga do Brasil em funcionamento ficava em Bananal. Chamava-se Pharmácia Imperial e foi rebatizada para Pharmácia Popular com da proclamação da República. 

Conhecemos o último dono, o seu Plínio, e ele gostava muito de conversar. Contou que foi prefeito da cidade por umas 6 vezes, acho que o pai dele também foi prefeito, ou o filho, ou ambos, não lembro mais. Mas era uma família que respirava política. Contou histórias da Revolução de 1930 pra cá. Conservador até a medula, ele detestava Getúlio Vargas e era Lacerdista. Vi um livro com a biografia do Maluf em cima da mesa. Uma figura…

Ficamos tão interessados nas histórias do velhinho que ele acabou nos levando pra conhecer a casa dele, que é extensão da farmácia. Estava caindo aos pedaços, uma pena. O assoalho em pinho de Riga parecia que ia ceder a qualquer momento. Entre as rachaduras das paredes de adobe, ainda se viam os antigos afrescos. As pinturas eram inspiradas na função de cada cômodo. Queria fotografar, mas tive vergonha de pedir. Achei que seria muito invasivo.  Praticamente tudo naquela casa tinha mais de cem anos, exceto o dono, mas já estava quase lá. Os doze relógios de parede, todos funcionando, badalavam a cada meia hora. A casa toda badalava 24h por dia. Passamos uma tarde inteira lá. Mas no ano passado, fiquei sabendo que ele morreu. Agora li na internet que a farmácia fechou.

Potes de farmácia dos Barões de café. Os nomes já se apagaram.

Também no centro da cidade tem o Solar Aguiar Valim. A visita vale a pena principalmente por causa do senhor que fica lá recebendo as pessoas. Não lembro o nome dele, mas é um senhor muito falante. De lá ele ligou para a Fazenda Coqueiros, falou diretamente com a dona e nos mandou pra lá.

A dona da Fazenda Coqueiros é uma professora que morava aqui no Rio, em Botafogo, quando herdou a fazenda e se mudou pra lá.

 

Essa foi a primeira fazenda a ter banheiro dentro da casa principal. Ficava na verdade nesse puxadinho de madeira, e o esgoto era um buraco no chão que despejava os dejetos diretamente nesse desvio de água que passa por baixo do banheiro.

Depois de passar por baixo do banheiro, a água seguia para esse buraco onde os escravos eram pendurados por uma corrente fixada nessa argola do canto superior esquerdo da foto. Isso com a pele em carne viva depois de açoitados, para que revelassem em qual pé de café haviam escondido o dinheiro. Os escravos costumavam juntar dinheiro enterrando-o debaixo dos pés de café para tentar comprar sua alforria.

A dona fez uma pesquisa histórica pioneira na região. Levantou a história da fazenda pelo prisma dos escravos e não da família portuguesa. Todos em Bananal só contam as histórias dos senhores, esse foi o único lugar onde alguém resolveu contar o outro lado da história. Ela resgatou os utensílios dos escravos, os instrumentos de tortura, e todo o funcionamento da casa pelo prisma dos escravos. A senzala, por exemplo, ficava abaixo do assoalho da casa e tinha pouco mais de 1m de altura. Ou seja, não dava sequer pros escravos ficarem de pé ali dentro. A utilidade disso é que os escravos amontoados na senzala serviam para aquecer o assoalho da casa. O efeito disso foi que os escravos desenvolveram essa postura curvada de jogar capoeira.

Outra conversa que rendeu uma tarde inteira foi na Fazenda Resgatinho. O Sr. Afrânio contou tudo sobre seu alambique, os barris de carvalho importados pela Brahma há mais de 120 anos, o ponto da cachaça, do álcool, e a feitura da rapadura (que ele acrescentou amendoim). Acabei saindo de lá com uma rapadura e uma garrafa de cachaça.

 

Me hospedei na Fazenda Boa Vista onde foi gravada a novela Sinhá Moça. A comida é maravilhosa. Preferi ficar num quarto do prédio principal pela questão histórica e tal, tem até o quarto onde se hospedou o Duque de Caxias, se não me engano, mas já estava ocupado quando eu fui. Mas quem preza mais pelo conforto, talvez prefira uma construção mais recente que não fica rangendo a cada passo. Tem os apartamentos e chalés.

    

A Fazenda Independência também é hotel, mas é um pouco mais caro e não tem pensão completa. Mas está aberta à visitação e é mais bem cuidada do que a Boa Vista, onde me hospedei. É tão bem cuidada que nem parece ser de adobe. Fui lá só pra visitar. O projeto paisagístico do jardim é do Burle Marx.

  

Na Fazenda da Taquara eu fui já no caminho de volta pro Rio. O proprietário cobrou meio caro pela visita mas valeu à pena porque ele se formou em turismo e se especializou justamente na própria fazenda da qual é herdeiro. Daí ele levantou a árvore genealógica da família e conseguiu preservar não só a mobília, mas também os documentos, roupas e utensílios históricos da família. Foi tanta informação que acabei esquecendo quase tudo. Eu devia ter escrito esse post há dois anos.

Todas as janelas da casa dão pra esse pátio interno.

Sala de refeições da família.

Sala de jantar quando tem visitas.

A mais incrível de todas as fazendas da região é a Fazenda Resgate. Ela é considerada uma das cem mais belas e importantes edificações da história do Brasil. Mas eu só sei disso por causa da internet, não pude entrar na fazenda quando fui porque a família não abriu para visitação. O trabalho de restauração feito lá foi caríssimo e demoradíssimo. O site deles conta a história detalhada. Quero voltar a Bananal só por causa dessa fazenda.


Uma resposta para “Bananal e as histórias do tempo do café

  1. Saudade de Bananal!! Preciso voltar!!

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