O que eu vi da vida

Eu tinha pavor da minha avó de Natal (RN). Em cima da geladeira, ela ainda guardava a palmatória de madeira pesadona que fez as mãos do meu pai queimarem em tempo idos. Mas os netos não viram a velha palmatória em ação. Não foi só o Lula, o tempo também deixou minha avó mais light. Então, não era por isso o meu pavor.

Tinha um poço artesiano no quintal da velha casa da Rua Capitão Mor Gouveia. A casa não existe mais, virou uma concessionária. Meu pai passou a infância carregando latas d’água daquele poço pra dentro de casa. Deve ter sido aí que começou o problema de coluna dele. Depois meu avô fechou o poço e fez dele a fossa da casa, poluindo assim todo o lençol freático. Esse é o legado dos Silva para a posteridade. Mas voltemos.

Todos os dias, às 18h em ponto, meus avós iam para suas cadeiras de balanço da sala de TV com o prato do jantar nas mãos. O barulho da TV era ensurdecedor, da rua dava pra ouvir o que eles assistiam. Minha avó sempre dava boa noite pro Cid Moreira.

O meu avô aproveitava qualquer saída rápida da minha avó da sala, pra me empurrar o jantar dele. O máximo que ele conseguisse equilibrar em cada colherada. Ele fingia que era pra me agradar, e eu fingia que gostava porque tinha pena dele. A comida era muito ruim.

Não é que ela cozinhasse mal. O buraco era mais embaixo. Eles passaram fome quando jovens, no sertão de Mossoró/RN. Então, ela não desperdiçava absolutamente nada.

Dentro da pia, uma bacia engordurada recolhia toda a água da lavagem da louça para ser reaproveitada no quintal. TODA a água da louça. Nada podia escorrer pelo ralo.

Ao lado do fogão, um potinho guardava os palitos de fósforos queimados para serem reutilizados. Não era apenas uma ou duas vezes. Cada palito tinha que ser reutilizado até queimarmos os dedos.

No quintal, uma montanha de ossos de galinha se acumulava. Os cachorros não encontravam mais nada para comer naqueles ossos polidos de tanto que minha avó os raspava, chupava e quebrava ao meio pra sugar todo o tutano, ou sei lá o que tem dentro dos ossos de galinha. Não sobrava nem a cartilagem. Quando eles chegavam até os cachorros, eram apenas fósseis.

O caroço da manga brilhava, e o que sobrava das cascas eram películas transparentes depois de serem cuidadosamente raspadas com uma colher. Com o ovo era a mesma coisa. Ela puxava com o dedo até a última gosminha de clara.

Com a minha avó, não existiam restinhos. A velha era à prova de CSI.

Nunca soube exatamente do que eram feitos os sucos. Minha avó aproveitava os restos de todas as cascas e bagaços das frutas, verduras e legumes da casa. Não dá pra descrever o sabor nem a cor desses sucos misteriosos. Deviam ser bem nutritivos, pelo menos. Graças a eles, a casa praticamente não produzia lixo orgânico.

No lavabo, uma massa disforme, sem cor e de cheiro duvidoso era o sabonete. A velhinha ia grudando todos os restos de sabão em pedra e sabonetes da casa até formar aquela obra de arte abstrata.

Os almoços de domingo eram tensos para mim. Não existia a menor possibilidade de se largar comida no prato, qualquer grão que fosse.

Certo domingo, minha avó chegou da feira de manhã trazendo um peixe que o peixeiro ia jogar fora e ela achou um absurdo. Seria o nosso almoço. O cheiro estava estranho e o bicho tava meio inchado. Ela pôs aquilo pra cozinhar e o cheiro se espalhou pela casa. Petrificada de medo de comer aquilo, me concentrei numa encenação digna da novela das oito. Quando o peixe foi servido, fingi que estava passando mal. Minha mãe me disse depois que eu fiquei realmente pálida, com direito a lábios arroxeados e tudo! O engraçado foi ver minha avó dando uma de sabichona:

– Eu sabia! Assim que essa menina chegou aqui eu logo percebi que ela não estava bem.

E assim, pude sair incólume da mesa deixando a comida no prato. Acho que tive que tomar algum remédio, mas tava no lucro. Tenho pena é do meu pai, que teve que comer a comida dele e a minha. Fica por todas as comidas que tive que comer no lugar do meu avô.

Mas o fato foi que minha avó moldou o meu caráter mais do que eu poderia supor. Hoje em dia, não tolero desperdício de água, de comida, de embalagens, de dinheiro e de tempo.

Uma resposta para “O que eu vi da vida

  1. Que tenso isso.
    O pior é que esse tipo de coisa fica marcado na nossa memória de tal forma que acaba realmente moldando a gente, sem que a gente nem se dê conta.
    Pelo menos eu nunca tive nada disso. Mas vi cada coisa da vida também.
    rs

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