Mulheres ricas

Encontrei ontem esse reality show da Band enquanto zapeava pelos poucos canais que estão pegando o sinal digital lá em casa. Aquele monte de louras num iate gargalhando com suas taças de champanhe nas mãos cheias de anéis logo me prendeu a atenção. Não que eu seja deslumbrada, só devorei o blog da Lala Rudge de uma sentada só.

Com 5 minutos de programa, marido já havia me abandonado na sala e ido pro computador. Fiquei lá sozinha vendo aquela gente rica se jactando da sua riqueza. A certa altura, elas entraram numa loja que não tinha champanhe para oferecer aos clientes. Isso era uma gafe imperdoável. Não há nada que elas façam sem champanhe. Até ao banheiro elas devem ir levando suas taças. O piti foi tamanho, que o gerente acabou trazendo uma garrafa que havia arranjado no shopping para saciá-las. O que a cachaça não faz, né meu povo?

Isso me lembrou um episódio que passei numa loja, só que ao contrário, e foi por isso que comecei a escrever esse post. Foi nos idos anos da faculdade, quando eu era dura feito um coco e trabalhava como estagiscrava no escritório de um engenheiro português muquirana. O escravocrata me mantinha como estagiária mesmo depois de um ano que eu tinha terminado o CEFET. Acabei entrando na UFF e mantendo o jaleco do CEFET pra não pagar a barca, porque nem o dinheiro da passagem ele dava.

No meio do caminho entre as barcas e o campus do Gragoatá, tinha o famigerado Plaza shopping, onde eu acabava fazendo escalas periódicas. Eu passava lá só pra sofrer um pouquinho e, às vezes, garimpar algum preço remarcado da C&A.

Pois bem, devidamente contextualizado o nível da minha pobreza, prossigamos. Numa dessas idas ao shopping, a procura de uma sandália rasteira pra substituir a minha que já estava com o solado quase todo descolado, praticamente um jacaré do Pantanal, distraidamente acabei entrando na Datelli enquanto olhava as vitrines.

A criatura não tinha dinheiro nem pra passagem de ônibus, nunca tinha entrado nem na sonho dos pés. Só me dei conta da gravidade da situação quando o vendedor, depois de me oferecer água e refrigerante, tendo eu recusado ambos, me apareceu com uma balde cheio de gelo e uma garrafa de champanhe! Estranhei a novidade mas, pôia que sou, achei engraçado e só. Tolinha. O vendedor me cercou de caixas, e quando me dei conta, o chão da loja estava tomado por caixas abertas e sandálias espalhadas, e aquele balde de gelo com aquela garrafona chique, tudo pra mim. Aí começou o calafrio.

Até então, discutíamos apenas os modelos. Não dava mais pra segurar, era hora de falar de preços. Procurei a rasteirinha com as tiras mais finas, pois, pela minha lógica, menos couro = menor preço. Mas já de cara me vieram com uma cifra que mais parecia palavrão. Perdi a pose e fui perguntando o preço de todas, uma a uma, até descobrir a mais barata e pronto, comprei.

Saí do shopping em estado de choque e fui direto pra casa do marido, que na época era apenas namorado. Estava em estado catatônico quando marido perguntou o que houve e eu contei que havia acabado de gastar a metade do meu salário numa sandália rasteira simples, só porque me ameaçaram com uma garrafa de champanhe.

Isso foi há dez anos, e ainda lembro o preço: R$ 80,00.

O salário mínimo era R$ 180,00.

Uma resposta para “Mulheres ricas

  1. bancando o espírito de porco, as usual: essa foi uma boa experiência, pois assim, muito anos depois, vc teve coragem e presença de espírito para desistir de uma compra já no momento do pagamento só pq tinha pensado que o preço era um descontão e não o real. Viu como experiência é tudo nessa vida?😀

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