Diário da viagem – 8 a 10 de janeiro

Saímos de Gravatal diretamente pra Tubarão. O atrativo da cidade? Uma agência do Itaú. Àquela altura do campeonato, quase zerados de dinheiro vivo e só encontrando agências do BB em todas as cidades por onde passávamos, a indigência nos rondava. Chegamos ao ponto de pagar um almoço abastecendo o carro do dono do restaurante num posto de gasolina que aceitava cartão de débito. Tubarão era a única cidade num raio de 100 km que tinha Itaú.

Recuperada nossa dignidade financeira, fizemos uma escala em Laguna antes de seguir pra Praia do Rosa, só pra ver a casa da Anita Garibaldi. Na entrada da cidade, o quiosque de informações turísticas é muito bem sinalizado. Mas logo entendemos o motivo dessa esmola toda. Eles tentam te empurrar serviço de guia turístico alegando que você pode perder muito tempo se perdendo na cidade até achar os pontos turísticos. Acontece que o centro histórico da cidade, que é o que interessa, é um ovo. Até sem querer você encontra tudo. Aliás, acabei encontrando também essa belezura à venda.

Babei muito nessa casa. Mas voltemos ao que interessa. Essa era a casinha da Anita, e está aberta para visitação:

E fica ao lado da igreja onde ela casou pela primeira vez, aos 13 anos.

Visitamos também essa fonte de água mineral do século XIX lindamente restaurada onde aproveitamos pra encher as nossas garrafinhas. Água como deve ser: de graça.

Pronto, seguimos pra Praia do Rosa. Lugar paradisíaco, mas com infraestrutura caótica, como aliás acontece em praticamente todo o litoral de Santa Catarina. Seguimos pela estradinha principal do lugar, a única com calçamento, na esperança de ver o mar, pra dali escolher uma pousada. Mas a estradinha ziguezagueava e não chegava nunca na praia, até que o asfalto acabava e começava uma pirambeira terrível. Demos meia volta e procuramos a pousada que eu tinha visto na internet.  Já no portão, uma plaquinha avisava que estavam lotados. Teimei e fui até a recepção:

– Oi! Eu li a plaquinha lá fora, mas deve ter alguém saindo, né? Digo, hoje é domingo…

– Não senhora, estamos lotados até o dia 20.

– Mas será o Benedito que esse povo não trabalha segunda-feira?!

– Não, estão todos de férias como a senhora.

Desci a rua batendo em todas as pousadas e a resposta era a mesma. Tudo lotado. E de argentinos ainda por cima! Um absurdo.

Por fim, a léguas de distância da praia, encontramos um camping que tinha uns quartos, e um estava vazio. 30 reais por pessoa. Marido foi logo se animando. O lugar parecia uma república dessas de estudantes, só que de surfistas. Aliás, depois percebemos que a praia do Rosa é território de surfistas. Foi quase um turismo etnográfico. Olha só:

– A religião dos surfistas.

– Na cozinha coletiva do camping, ao invés do clássico “proibido fumar”, o aviso era esse:

A propósito, sobre essa cozinha coletiva, tenho a dizer que a defesa civil interditaria o local se o visse. Tive a infeliz curiosidade de abrir uma panela que estava sobre o fogão. Ali jazia um macarrão azul. Se a gente come macarrão ao funghi, surfista deve comer macarrão ao mofo mesmo.  Me animei com uma sanduicheira que vi na prateleira, mas ao abri-la, me deparei com fósseis de queijo que devem datar do período paleolítico. Mas voltemos aos demais aspectos da vida dos surfistas.

– Como não podia faltar em todo lugar “alternativo”, no nosso camping tinha também aquelas tiras que os hippies adoram esticar entre duas árvores pra ficar andando em cima. Aproveitei a incursão nesse universo paralelo pra fazer as minhas honrosas tentativas:

A essa altura, já totalmente integrada ao habitat, fui apreciar a culinária surfista. Comemos numa pizzaria muito boa, bem chiquezinha, porque os surfistas também sabem ser chiques. Aliás, tem muito restaurante com carinha de chique na Praia do Rosa. O rapaz que nos atendeu, com cara de surfista, explicou as ‘energias” da pizza. Ele faz uma massa integral que leva até semente de linhaça. Os sabores incluem abobrinha, berinjela, gergelim, rúcula e outros que eu não lembro. Sobre as mesas, ao invés de mostarda, catchup e outras porcarias que o povo adora colocar na pizza, o que tinha eram raminhos de alecrim, manjericão, sálvia, alfazema, tudo fresquinho espetado em vidros de água, pra ser colocado na pizza como tempero. Quando veio a nossa pizza, observei que a cor do molho de tomate estava diferente, parecia cor de beterraba. Pronto, eu tinha acabado de descobrir o segredo do molho de tomate deles.

Os surfistas têm um fuso horário próprio. Acordei às 5h da manhã com a barulheira deles se preparando para irem à praia. A praia, aliás, é um capítulo à parte. Nós estávamos há quase meia hora a pé da praia. Na verdade, depois de 10 minutos de caminhada você já está rente ao mar, ouve até o barulho das ondas. Mas, como eu disse, o litoral de Santa Catarina é de uma urbanização caótica. As pousadas se proliferaram livremente na areia da praia, impedindo a passagem. Daí, é preciso caminhar mais uns 20 minutos até que surja uma brecha no paredão de pousadas que nos permita alcançar o mar. Ah, o mar, um bálsamo depois do calvário. Portanto, fica a dica. Se você for à Praia do Rosa, verifique se a sua pousada tem trilha própria para a praia, porque em Santa Catarina é assim, o acesso às praias é privatizado.

Próxima parada, de volta à base, em Curitiba, porque já cansamos dessa vida andarilha.

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