Tratamento de canal – notícias do front

Não morri na cadeira do dentista. Morri antes de chegar lá.

A luta pra controlar a fobia foi assim. Pela manhã, era abrir os olhos e imediatamente registrar que existia um canal a ser feito, que não era sonho. E já começava o mantra “não posso pensar nisso” seguido pelo “vou pensar em outra coisa”. Foi nessa onda que eu terminei meu TCC em 1 semana! O que um canal não faz… A última aula da pós foi no sábado, e na segunda-feira, véspera do canal, eu já estava encaminhando a versão final do TCC pra professora.

Então, ou eu estava fazendo o TCC, ou lendo. Peguei o livro da Ingrid Betancourt, que é um calhamaço, e mandei ver. Eu lia por dever ou por lazer. Era ler pra não ter tempo de pensar. A droga é que a história dela no cativeiro também me deprimia. Mas é melhor ficar triste pela desgraça alheia do que pela nossa. Sentiram o drama? Canal acabou ser promovido à categoria de desgraça. É só deixar que o medo constrói monstros do nada. Um tratamentosinho básico de canal virou o corredor da morte.

Daí, no final da tarde de segunda-feira, véspera do canal, tive que apelar. Já tinha mandado o TCC e só me restava o livro da Ingrid pra tentar me distrair. Não deu. Só pensava no raio do canal. Parti então pro confronto. Comecei a pensar nos dramas de verdade da vida, pra devolver as coisas ao seu tamanho real. Saquei o Gianecchini da manga. Me projetei pro lugar dele. Fiquei pensando em como seria se o que estivesse em questão, ao invés de um tratamento, fosse a minha vida. Viajei nessa parada. Tipo, comparar o medo de um canal com o medo de morrer. Concluí que morrer devia ser bem pior. Concluí também que não ter tido nenhum câncer durante esses 32 anos de vida era uma grande sorte. E tratei de ficar feliz com isso. Beleza, ainda não estava maluca.  O novo mantra então era ” não tenho câncer, não tenho câncer, não tenho câncer”, pra reduzir o canal ao seu real tamanho.

Resultado: sonhei que tinha lupus.

Aviso: Não faça isso em casa. Se você tem uma fobia, procure ajuda. Ficar tentando resolver a parada sozinha dá nisso. Passei a noite toda sonhando com lupus e acordei deprimida porque era o dia do canal. Aliás, por que raios meu subconsciente transformou câncer em lupus?

Enfim, fui pra dentista.

A sala de espera era a pior parte. tentei me concentrar na televisão. Era um programa matinal da Record, desses que tem receitas, reportagens, merchan e os apresentadores ficam batendo papinho entre si. Eles estavam mostrando umas reportagens sobre pessoas que reagiram a assaltos e foram brutalmente assassinadas. Ajudou muito.

A assistente da dentista me chamou. Entrei na salinha, ela me botou um babador, me deu um guardanapo e foi embora, me deixando sentada naquela cadeira de dentista olhando para o teto. Me dei conta que a sala de espera não era a pior parte. A espera dentro da sala da dentista era pior.

A dentista chegou, falou umas coisinhas, super gentil e tal. Disse que ia me aplicar a anestesia, e me explicou como funcionava esse lance de tomar agulhada na boca. Ela foi didática e eu fingi naturalidade. Na hora H senti a picada e tive um espasmo no corpo todo. Fiquei toda dura, retraí as pernas e prendi a respiração esperando ela tirar aquilo de mim. Mas demorava… e demorava… e ela ainda sacudiu a minha bochecha pra espalhar o líquido, e eu não respirava pra não correr o risco de me mexer. Quando ela tirou, eu senti looongamente a agulha saindo. Parecia que tinha uma mangueira enfiada na minha gengiva. Ela perguntou se eu tinha sentido uma dor tão terrível assim, pela reação que eu tive. Expliquei que não, era só o medo acumulado que tinha gerado aquele efeito terremoto no meu corpo, mas que era só coisa da minha cabeça, não foi nada que ela tivesse feito. Batemos papinho por um tempo enquanto esperava fazer efeito. Mas o efeito não passava de um formigamento.

Resultado: vamos aplicar outra anestesia.

Dessa vez eu já sabia o que me esperava. Relaxei o corpo e tentei controlar a ansiedade, pra não dar outro xilique daquele na cadeira. Até que deu certo. Acho que fiquei muito próximo da normalidade. Mas, quando enfim ela começou a trabalhar no meu dente, eu senti umas pontadas de dor.

Resultado: vamos para a terceira anestesia, desta vez dentro do dente!

A essa altura, no meio da desgraceira a gente até relaxa. Vai lá, doutora, manda ver. Já estou hylander nesse negócio. Ela segurou a minha cabeça, e conseguiu até ser carinhosa nessa situação de extremo suplício, e deu a agulhada. Doeu de verdade. Mas ela sabia que dessa vez não era coisa da minha cabeça, e ficou me consolando: “Eu sei que dói mesmo, eu sei… Mas já está terminando e você não vai sentir mais nada”. E ela falava fazendo uma voz fininha, como se eu tivesse 5 anos de idade e como se ela fosse a minha mãe. É como se ela tivesse com pena de mim. E sabe que eu gostei! Me senti acolhida e consolada na minha dor. Completamente louca, eu sei…

Tirando essa parte, o resto do canal foi pinto. Você percebe a pessoa cutucando o seu dente, mas não sente dor nenhuma. Estava tão tensa esperando uma dor iminente, que nem reparei que tinham se passado 50 minutos e eu consegui ficar com a boca aberta todo esse tempo.

Depois ela fechou com um curativo e disse que a gente continua na semana que vem. Sinceramente, preferia ter ficado e resolvido logo tudo, porque a pior parte foi o começo, por causa das anestesias que não pegavam. Não queria passar por isso de novo. Mas pelo menos já sei como é. Segunda-feira que vem, vou relaxar o corpo pra controlar o xilique na hora da agulhada. E não vou fazer exercícios mentais pensando em desgraças maiores. Sou adulta e não preciso desses recursos para lidar com uma coisa tão simples da vida. Acho que vou conseguir passar como uma pessoa normal.

Ah, contei pra vocês? Vou ter que fazer canal em outro dente!

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Uma resposta para “Tratamento de canal – notícias do front

  1. cara, te contar que lupus é realmente sinistro, não é à toa que o House considere lupus em todos os casos. rola uma sentença de morte, sabia? eu não, mas me contaram. 😦

    amiga, quando quiser se consolar pensa que eu já extraí quatro cizos e fiz cirurgia na gengiva. em dado momento a assistente do dentista segurava a minha cabeça, porque tinha de ficar fixa, e o dentista extraía o tumor. e oh, nem ganhei voz confortante (se não consolar não tenho culpa, comigo funciona, sempre me consola a desgraça alheia parecer pior que a minha).

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