De espadrille na chuva

Primeiro eu não estava dando a mínima pra essa moda de espadrille porque eram todas altas, e de alta já basta a conta telefônica. Foi então que eu vi na sapatela, ou era antonela, ou andarela, enfim, uma dessas elas da vida, uma espadrille rasteirinha. E o melhor, 48 pilas! Comprei na mesma hora, porque gente impulsiva decidida é assim.

Daí que ontem o céu estava azul da cor do céu, e isso pedia uma espadrille, e eu tinha! Que coincidência… Passei o dia toda serelepe com o meu vestido chemise navy e espadrille num tom cru. Modéstia a parte, eu estava a coisa mais chique desse mundo. Mas deixei pra tirar fotinho na volta dos trabalhos, porque já estava muito atrasada. E se esse post está saindo sem fotinho, foi porque um desastre se abateu sobre mim e a minha espadrille nova.

Fui pro trabalho 1, e até aí tudo bem. À noite, lá fui eu pra minha bat missão como professora da nossa querida rede estadual noturna. Um professor faltou, e eu juntei as duas últimas turmas da noite. Então, lá estávamos minha espadrille e eu às 20h encarando a 1001 e a 1002 juntas na mesma sala.

No meio da aula, começou a cair um pé d’água lá fora. Aí começou o dramalhão típico do alunado quando encontra um álibi:

– Professora, está chovendo! Libera aí!

– Por acaso o seu trabalho te libera por causa de chuva? É decretado feriado nacional quando chove? Qual é, galera! Vamos parar com o drama.

– Professora, está chovendo em mim!

– Fecha a janela.

– Mas vai ficar quente!

– Liga o ventilador.

– Minha casa enche!

– Dane-se.

Em qualquer outro dia, eu teria liberado. Querem ir embora? Hasta la vista, babies. Mas desta vez eu precisava desesperadamente salvar minha espadrille. O clima foi ficando tenso, os apelos foram se avolumando, até que uma boa alma sugeriu que eu liberasse aqueles que estavam enchendo o saco. Como eu não pensei nisso antes?

Foi aí que uma aluna se encrespou com um aluno e começou a xingá-lo. Ele era do grupo que ia ficar, e ela do grupo de açúcar que estava indo embora com o álibi da chuva. Daí, a garota ficou em pé na porta da sala, xingando aos berros o garoto que permanecia sentado esperando a aula. E eu no meio, com minha espadrille no pé e aquela chuva colossal lá fora. O que eu fiz? Absolutamente nada. Simulei uma expressão de ultraje pelos impropérios que a menina bradava, enquanto calculava quanto tempo mais aquela chuva ia durar, e se não era melhor afogar logo aquela droga de espadrille no dilúvio e depois comprar outra. A garota tinha um séquito, e eles ficaram debochando de quem ia ficar.

Por fim, foram embora, mas levaram com eles toda a minha disposição junto. A espadrille não valia tanto esforço. Dei mais alguns minutos de aula e aproveitei pra dar umas dicas para a prova da semana que vem, pra compensar aquelas boas almas que queriam aula. Liberei a turma e fui afogar minhas mágoas e minha espadrille na chuva que só foi dar uma trégua quando eu já tinha chegado em casa.

Então gente, essa foi a breve história de vida da minha espadrille.

Tchau pra vocês.

 

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