Um ateu e uma espírita na missa: viva o Brasil.

Tenho uma amiga que eu não vejo há mil anos e que deve estar pensando que eu morri. Aliás, não é só ela, tenho uma boa meia dúzia de amigas nessa condição. Sou um fiasco nesse lance de manter contatos. Mas voltemos a quem eu estou pensando. A minha amiga católica.

Há mil anos atrás, quando eu ainda nem sabia o que eram fios brancos, minha amiga católica me convidou para a crisma dela. Espírita de berço que sou, aliás só de berço mesmo, porque há mil anos que eu não vou a uma reunião pública, não fazia ideia do que era a tal crisma. Mas é um negócio muito do importante, percebi pela cerimônia que minha amiga estava fazendo ao me convidar.

Pois bem, no dia fatídico, lá estava eu perdidinha na igreja. Numa situação assim, pra não passar vergonha, o que a gente faz? Imita. As pessoas pegavam um livreto na entrada da igreja. Lá fui eu atrás. As pessoas levantaram quando o padre entrou. Me too. O padre falava umas coisas e as pessoas completavam com outras, tudo conforme o livreto, tipo um jogral. Aprendi rápido e acompanhei tudo, inteligente que sou. As pessoas sentavam e levantavam. Ok, mole de seguir. Até que as pessoas começaram a fazer coisas diferentes, que nem todos faziam. Aí começou a complicação. Alguns levantavam as duas mãos, como num fervor de fé. Daí, imitar seria meio ridículo, ponderei. Agora não bastava mais imitar, tinha que rolar um discernimento. Ai Deus, por que não voltamos para o level 1… As pessoas ajoelharam. Lá fui eu. Apenas alguns ajoelharam, aproveitei para poupar meus joelhos ossudos. Algumas pessoas levantavam e outras não. Beleza, permaneci sentadinha da silva. Algumas pessoas foram pegar a hóstia. Essa eu sabia! Só pode quem é católico, devidamente batizado e em dia com as suas confissões. Tão bom quando a gente conhece as regras, né? Mas alegria de silva dura pouco. Teve uma hora que todos se levantaram, mas vi que um sujeito lá na frente tinha permanecido sentado. Toda trabalhada no discernimento, não levantei pra não dar bandeira de macaco de imitação. Foi aí que veio o tapa. Bem no meu ombro, forte. Era a mãe da minha amiga, indignada com a minha falta de respeito.

– Levanta, menina!

Passada de vergonha, fui me justificar.

– Mas aquele senhor, bem ali ó, também não levantou! – Prontamente delatei o infrator que permanecia sentado alguns bancos a minha frente.

– Se ele levantar será um milagre, sua poia! Não tá vendo a cadeira de rodas encostada na parede?

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Esse fim de semana fui andar pela Glória. Há tempos queria fazer isso. Sempre que passo pela Rua do Catete, vejo uns casarões amarelos lindíssimos no meio do mato e caindo aos pedaços, num lugar que eu deduzi ser uma rua por trás do CIEP. Acho lindo coisas decadentes. É poético. Esse domingo não teve erro. Arrastei maridão pra bater perna comigo na Glória. Cheguei ali na esquina do amarelinho, logo no início da ladeira já tem a rua dos casarões amarelos. Fechada. Propriedade do TJ. Droga. Dei uma namorada nos casarões de longe mesmo, e continuei a subida.

Lá no alto, dou de cara com o Outeiro da Glória. Gente, devo ter sido católica em outra encarnação. Gosto da estética do Catolicismo. Entrar numa igreja é um barato, né não?  Você se sente pequeno, irrisório, fugaz. Aquela igreja te diz: você vai nascer e morrer mil vezes, enquanto eu estarei sempre aqui, senhora do tempo e do espaço. Católicos, desculpem o sincretismo, mas estamos no Brasil, né meu povo! Então pode. Não sei quando foi construído o Outeiro da Glória, e estou com preguiça de olhar no Google, mas pra mim, parece que está lá desde sempre e para sempre permanecerá. E acho isso lindo.

Bem nessa hora começou uma missa! Eu, que já tenho know how nisso como vocês atestaram acima, resolvi ficar um pouquinho. Nessa altura, Maridão-ateu-de-carteirinha já estava indócil zanzando do lado de fora da igreja. Deus perdoa. Olhei o padre, as roupas, o altar todo entalhado em madeira, os painéis de azulejos azuis, a fala musicada do padre parecia canto gregoriano, tudo tão medieval.

O mais mágico do Catolicismo pra mim, é a capacidade de permanecer. Em nenhum outro prédio histórico da cidade, você conseguirá ver repetir-se ali dentro exatamente o que era feito há séculos. Tudo bem que as missas agora são em português, os castiçais foram adaptados para a luz elétrica e que a igreja resolveu aceitar que a Terra é redonda, mas tirando essas pequenas adaptações, o conteúdo é o mesmo. A entonação do padre preserva o traço medieval. As roupas, os utensílios, a liturgia, tudo é como uma viagem no tempo.

Desde pequena, quando a minha mãe me levava no museu imperial de Petrópolis, eu ficava num misto de euforia e frustração. A preservação dos ambientes como eram usados antigamente me deslumbrava, mas faltava a parte viva da coisa. Queria ver as pessoas da época zanzando por ali, queria ver os modos de viver da época, não como uma encenação para turistas, mas de verdade acontecendo! Num país com sede de ser muderno, todavia, só a “boa” e velha Igreja Católica conseguiu essa façanha.

(Católicos, desculpem as aspas do “boa”. Mas sou casada com professor de História e, historicamente falando, “boa” não é exatamente o que a Igreja foi, com todo o respeito.) ;-) 

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