A Zara e os escravos

Ontem no programa A Liga o tema era trabalho escravo. Tudo muito deprimente, revoltante, enfim. Lá estava eu, do alto do meu sofá, toda indignada. Até começar a respingar em mim.

Mostraram um cubículo com um monte de bolivianas ilegais trabalhando… para a Zara.  A Zara paga R$7,00 por um vestido que nas lojas vai custar pelo menos R$150,00. E se as costureiras por acaso danificarem a peça, terão que pagar à Zara pelo valor da loja. Ou seja, mais de 20 vezes o valor que a Zara paga às costureiras pelo mesmo vestido.

Honestamente, a gente sabe que por trás das grandes marcas sempre tem grandes chagas sociais, né… Ou será que tem alguma alma inocente nesse mundo que acredita que não?  Tem também a famosa desculpa da geração de empregos e do crescimento da economia pra escamotear o sem número de atrocidades que essas grandes corporações cometem pelo mundo afora. Parecemos ter esquecido que última a vez que usamos a economia do país como desculpa foi há pouco mais de 100 anos, pra não acabar com a escravidão.

O caminho para dormir completamente em paz com a consciência seria uma vida tão alternativa, que eu não saberia nem por onde começar:

– tenho feito coleta seletiva do lixo lá em casa. Mas isso não é nada. Eu tinha mesmo era que produzir menos lixo ao invés de ficar só separando ele.

– estou fazendo o meu pão e o meu iogurte. Mas isso é piada. Faço com máquinas que consomem energia, e os ingredientes são todos industrializados comprados em grandes cadeias de supermercados.

– parar de comprar na Zara? Não daria nem pra saída. Teríamos no mínimo era que ressuscitar as boas e velhas costureiras. Por onde será que elas andam? Ah, sim. Estão trabalhando em regime semi-escravo para boa parte das marcas de roupas que eu uso.

Enfim, seguindo essa linha de raciocínio, acabo caindo no buraco negro de repensar profundamente as relações de consumo, a lógica do sistema, a indústria da moda, da alimentação, dos automóveis, do entretenimento, da tecnologia. O nosso modo de vida está todo atrelado à exploração crescente tanto do ser humano quanto do meio ambiente.

Como sair limpo dessa história?

De Chanel na laje também buscava essa resposta. Mas ela parou de escrever.

Update: Mudando de assunto, pero no mucho, olha que lindo que já tem em São Paulo: http://www.alimentosustentavel.com.br/

3 Respostas para “A Zara e os escravos

  1. Eu vi um bloco desse programa de ontem, justamente o que falava da Zara.
    Fazia tanto tempo que não via/lia nada sobre trabalho escravo para grandes marcas, que fiquei surpresa por isso ainda existir – e depois fiquei me sentindo idiota por ter ficado surpresa, mas é essa minha coisa de acreditar que o mundo/as pessoas/as coisas estão sempre evoluindo e melhorando; muitas vezes eu caio no discurso politicamente correto em pauta, e esqueço o quanto de hipocrisia existe por aí…
    Enfim, desanima mesmo.
    Mas eu sempre acho que alguma hora as coisas melhoram. É uma crença sem muito fundamento, mas eu prefiro acreditar que ainda há solução, mesmo que eu não saiba qual é. 🙂

    • Sobre esses discursos politicamente corretos das empresas, teve outro bloco do programa que mostrou uma construtora que mantém os trabalhadores num lugar muito nojento, pior que presídio. Mas nas portas tem um papel colado com o discurso de qualidade da empresa. Tipo Missão, Visão, Valores, essa ladainha toda, no meio do maior pulgueiro! Fiquei besta. Depois fiquei me achando uma besta por me surpreender com isso. Depois resolvi que não compro mais na Zara. Depois lembrei de todas as outras marcas que eu compro fingindo que acredito que elas são super certinhas…

  2. Olá Cláudia🙂
    Agora ando a explorar o blog… Alguma da roupa da Zara que se vende em Portugal é feita em Portugal ou Espanha, devido à proximidade a Zara é galega, muito próxima do norte de Portugal, de tal forma que a primeira loja internacional da Zara foi no Porto. Mas bem com a roupa que é feita é Portugal eu não me preocupo, bem os portugueses que trabalham na indústria têxtil são explorados, mas não são escravizados…

    Há uns anos comprava quase tudo de marcas portuguesas (as quais eram feitas cá), mas as marcas portuguesas são carissimas comparadas com a Zara que é muito barata… Por isso tive que começar a recorrer mais à Zara, a verdade é que não temos grande alternativa. Acho que a única alternativa é comprar muito menos, ou então começarmos a fazer as nossas roupas, mas eu não tenho jeitinho nenhum para isso…

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