O mito da democracia racial

Se prepara, porque hoje eu vou falar é muito.

Eu podia despejar o que ando pensando no meu diário secreto. Mas estaria reforçando o tabu que tanto me inquieta. Por isso venho a público, de peito aberto, colocar o dedo na ferida, e esfregar bem até sangrar.

Há não sei quanto tempo atrás, lembro que tinha uma campanha, na TVE se não me engano, que perguntava pras pessoas na rua onde você esconde o seu preconceito? Daí, o povo ficava todo desconcertado, e alguns negavam peremptoriamente serem preconceituosos. A questão é que no Brasil o racismo está tão escondido, mas tão escondido, que as pessoas até esquecem que tem. Nem o Bolsonaro é capaz de identificar que é racista. Vai logo sacando da manga um cunhado negro pra limpar a sua barra. E assim seguimos todos nós, nos escorando em amigos, parentes, e até namorados negros pra provar que não somos racistas. E dormimos tranquilos.

O negócio já começa em casa, com a pobre da empregada. É adorável dizer que se ama a empregada, que ela é parte da família. O que eu nunca vi foi a empregada entrar no testamento. E, por gostarem demais dela, resolveram chamá-la de secretária. A primeira vez que ouvi isso, realmente acreditei que a criatura tinha uma secretária particular. Demorou até cair a ficha. E quando caiu, fiquei encucada. Qual o problema com o nome empregada doméstica? É humilhante? É sinônimo de escrava? Talvez, na nossa sociedade seja mesmo. São as velhas mucamas, que sobreviveram até hoje nas casas da classe média brasileira. E, talvez por uma culpa coletiva tácita, tão inconfessável quanto impregnada, rebatizamos a pobre coitada para secretária. Sintomático isso…

Depois, vem a onda clareadora nacional. As pessoas só querem ser pretas no carnaval, e olhe lá. Aí vem o IBGE e pergunta a sua cor. Pronto. Todo mundo é branquinho da silva. E se você tentar não ser branco, até o próprio entrevistador do IBGE vai te consolar, e dizer que não, você não é negro. Você é pardo, no máximo. E ele te dá até tapinha nas costas. Acha que está te consolando, te livrando de um carma. Ontem mesmo, quando eu estava na coordenadoria do Estado, observei uma atendente que cadastrava um professor no sistema quando ele se autodeclarou negro. Prontamente, ela tratou de corrigi-lo: mas o senhor não é negro, professor! O tom era de absolvição. Quando alguém te diz que você não é negro, está querendo te agradar.

O mais cruel disso tudo, é que na hora H, ninguém é racista. Nem sob tortura o brasileiro se admite racista. O brasileiro acredita de verdade, de coração e de alma, que não é racista. Mas, por via das dúvidas, todos querem ter alma branca. Escondemos tanto o nosso racismo, mas tanto, que esquecemos onde ele foi parar, e acabamos jurando que ele não existe. Afinal, o que os olhos não vêem…

O que li de mais sintomático sobre isso foi nesse post, no so shopaholic! As pessoas adoram dizer que a Thaís Araújo é linda, que o cabelo crespo é lindo, que a cor negra é linda. Fazem isso impostando a voz, batendo no peito, fazendo cara de santas. Mas basta relaxar um pouquinho, bastam umas cervejinhas na ideia, que logo brotam as pérolas do racismo brasileiro. A pérola do cabelo ruim, como se um cabelo pudesse fazer mal a alguém.

Se Deus te dissesse:

Meu filho, vc terá que nascer gordo, mas todo o resto poderás escolher. Preferes ter a pele branca ou preta? Queres cabelos lisos e loiros, ou negros e crespos?

Não precisa escrever nada, nem falar em voz alta, que é pra não deixar provas. Responda só pra você mesmo. Concorda que você só toparia ser preto se fosse pra ser lindo de morrer, tipo um deus de ébano todo sarado? Agora, se já é pra ser gordo, por exemplo, pra que juntar duas desvantagens, não é mesmo? Por favor, só sendo muito honesto com você mesmo é que será possível dar o primeiro passo contra o seu racismo. Primeiro, é preciso saber exatamente onde ele está, olhá-lo de frente, reconhecê-lo. Senão, você vai morrer jurando que não é racista, e soltando pérolas do tipo:

Fulando(a) é um(a) negro(a) lindo(a)! (Fulando conseguiu uma proeza, afinal, não é fácil ser lindo sendo negro, certo?)

– Fulando(a) já é preto(a), e ainda feio(a)! (Então fulano tem duas desvantagens, né?)

– Fulando(a) é negro, mas tem o cabelo liso e os olhos verdes! (Que sorte do fulano ter essas compensações, não é mesmo?)

Meus amigos e eu já constatamos isso, e a nossa brincadeira particular agora é pegar o racismo velado e colocá-lo às claras, jogar logo um holofote nele: reconhecê-lo e ridicularizá-lo para abandoná-lo. Daí, dia desses estávamos numa pizzaria, numa mesa daquelas bem compridas com um monte de colegas de trabalho e várias conversas paralelas. O papo na nossa panelinha era sobre como fazer com que a proprietária do apartamento aceite trocar de inquilino. Minha amiga sairia do imóvel mas deixaria outro amigo nosso no lugar, assumindo o mesmo contrato que é pra não ter problemas com aumento do aluguel. Pra convencer a velhinha a aceitar isso, começamos a descrever todas as virtudes do nosso amigo:

– Ele é um garoto de família!
– Ele trabalha na nossa empresa!
– É solteiro, ganha bem, estudioso, inteligente, pacato…

Foi quando eu soltei:

– Ele é branco!

Imediatamente, um silêncio sepulcral abateu-se sobre todos, de uma ponta à outra da mesa. As conversas paralelas cessaram como mágica. Olhares aterrorizados se voltaram para mim. Prontamente, minha amiga declarou em tom diplomático: calma gente, era só brincadeira, ela não é racista. O fato dela ser negra reforçou o meu álibi. Então, ainda um tanto desconcertadas, as pessoas retomaram o falatório.

A pergunta é: o espanto geral era indignação genuína, ou bem lá no fundo, tão fundo que mal dá pra ver, teria sido um espanto com a revelação de um segredo insondável? Como um fantasma, que vem à tona assombrar seus algozes?

Eu podia despejar o que ando pensando no meu diário secreto. Mas estaria reforçando o tabu que tanto me inquieta. Por isso venho a público, de peito aberto, colocar o dedo na ferida, e esfregar bem até sangrar…

8 Respostas para “O mito da democracia racial

  1. Nossa, esse post está tão bom e eu concordo tanto que vou exemplificar essa situação com duas cenas da minha família. Mas antes, uma introdução:
    Minha avó é negra, meu avô é filho de um português com uma brasileira. Para os parentes dele, ele a descrevia como “café com leite: você mistura café e leite bem misturadinho, metade-metade, e essa é a cor dela”. E ela fica toda orgulhosa de contar como ele descrevia a sua cor.
    Bom, a irmã da minha avó também pode entrar na definição café com leite, e eu ouvi a seguinte história: um sobrinho dela veio apresentar a namorada, que estava fazendo faculdade, tinha pinta de intelecutal e era toda fodona no meio acadêmico. Tudo isso e negra negra negra. Foi apresentar pra minha tia-avó. Sentaram na mesa, conversaram e, no fim da prosa, o sobrinho disse “não é linda a minha namorada, tia?”, ao que ela respondeu: “não sei, não consegui ver. só enxerguei os dentes”.
    Queria cavar um buraco no chão quando ouvi a história.

  2. A segunda história aconteceu comigo. Meu pai é militar, sempre tivemos uma vida muito boa, frequentei as melhores escolas e tudo mais. Lembro muito de ir a restaurantes em que eu era a única negra, excetuando, claro, os garçons. Mas enfim, voltando, um dia fui tirar minha carteira de identidade militar, meu pai acompanhando, a galera batendo continência ao vê-lo passar, eu sempre toda orgulhosa. Na hora de preencher os meus dados, o soldado responsável sequer perguntou a minha cor. Simplesmente preencheu: “alva”. Meu pai acha que foi uma forma de agradar. Afinal, quem teria coragem de chamar a filha do Coronel de negra?

  3. Tem um livro do Ali Kamel, diretor ou ex, não sei, da CGJ, intitulado “Não somos racistas”. E eu, essa alma pura, comprei o dito cujo porque realmente fiquei muito curiosa em entender qual era a da pesquisa do cidadão. Então, resumidamente, o livro despeja uma infinidade de estatísticas que, segundo o autor, comprovam que a sociedade brasileira não é racista, que nosso preconceito, se existe, não é de raça e sim de classe. Não é surpresa alguma essa conclusão, dadas as credenciais do autor, mas é sintomático que um cara nessa posição se dê ao trabalho de defender essa tese. Aliás, defender não é o termo mais correto, precisa realmente defender essa tese se ela é a mais pacificamente aceita?
    É por essas e muitas outras que todos podem dormir tranquilos achando que racismo não existe.

    • Aliás, esse tal preconceito de classe e não de raça, é outra belíssima muleta que inventamos, né? Eu lembro que no período de maior pobreza da minha família, sempre diziam que eu não parecia pobre. Era como se dissessem: anime-se, pelo menos você não é negra!

      Fê, essa do soldado querendo agradar o Coronel clareando a filha dele foi ótima!

  4. Acabei rindo. Desculpa…rssssssss

  5. Olá encontrei este blog por acaso e achei muito interessante este post.
    Sou portuguesa e aqui acho que a ideia de racismo é um pouco diferente, bem ao menos não temos que nos declarar nada em documentos oficiais… somos portugueses e pronto…

    Mas por exemplo é recorrente nas notícias, quando existe um assalto com brancos dizem “um grupo de jovens”, quando o assalto é feito por negros “um grupo de jovens de origem africana”, sendo que a maioria deles são portugueses… mas pronto…

    Outra coisa é os negros que são assaltantes, mendigos, etc são uma porcaria que deviam voltar para o país deles (mesmo que o país dele no fundo seja o nosso), mas se forem jogadores de futebol famosos como o Nani, ou ganharem medalhas de ouro nas olimpiadas como o Nélson Évora, ui aí são o orgulho nacional, portugueses dos sete costados… Mas nem todas as pessoas pensam assim, também não vos quero passar ideia que isto aqui é horrível, porque não é…

    Mas mesmo entre brancos sinto essas diferenças, em Portugal a maioria das pessoas têm olhos castanhos, como eu, mas a família do meu pai e o meu pai tem olhos azuis… Então quando alguém que me conhece, conhece o meu pai, diz-me sempre com o grande felicidade “Já viste a tua sorte, tu podes vir a ter filhos com olhos azuis”

    E eu fico com aquela cara de irritada, sorte porquê, eu nunca quis ter olhos azuis, não acho que olhos azuis por definição sejam mais bonitos que olhos castanhos, logo sorte porquê?

    Outra história, uma vez uma amiga minha, loira, branquinha de olhos claros, perguntou-me como eu gostava de ter uma filha… e eu disse: morena (tipo índia), cabelo castanho escuro liso e olhos castanhos grandes (disse basicamente as minhas caracteristicas). Ela vira-se não preferias ter uma filha loira. Eu disse que não, nunca achei os loiros bonitos… Ela ficou toda ofendida que os loiros são muito mais bonitos que os morenos que a maior parte das pessoas quer ter filhos loiros…

    A verdade é que eu gosto muito de ser como sou, logo porque haveria de querer ter um filho completamente diferente de mim, aliás nem eu nem o meu namorado temos loiros na família, acho que mesmo que quisesse muito seria difícil😛

  6. É Xoru, o padrão loiro de olhos azuis pelo visto é mundial… Aqui no Brasil, quem não sonha em ser a Gisele Bündchen? É muito difícil desconstruir esses padrões de beleza.

  7. Mas a Gisele Bundchen é bem bonita mesmo… a maior parte dos loiros portugueses que conheço não são assim tão bonitos quanto isso, pelo meu gosto claro… certamente que aí no Brasil também há loiros feios…

    Mas uma coisa engraçada e podem chamar preconceito, mas em Portugal a maioria dos negros são de descendência cabo-verdiana, os cabo-verdianos são desde muito escuros a quase brancos, e acho que ninguém em Portugal é capaz de negar que há cabo-verdianos/as muito bonitos/as. Mas a realidade é que quando falamos de descendentes de guineenses quase toda a gente os acha feios é quase geral… Acho que o motivo se deve ao facto dos traços físicos dos guineenses serem tão distintos dos padrões europeus de beleza… enquanto que os traços físicos dos cabo-verdianos são bem parecidos aos dos portugueses e por isso conseguimos apreciar melhor essa beleza… Será que isto também é preconceito ou é apenas constatação?

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