Terapia em blog

Nasci querendo ser adulta. Passei batido pela infância. Já estava de saco cheio das pessoas me chamando de mocinha com voz de debilóides sempre que eu sentava com as pernas cruzadas, aos 6 anos de idade.

Gostava de brincar de banco. Cortava papel em formato de dinheiro, e ficava lá contando os papéis, fazendo montinhos organizados dentro de uma gaveta que eu abria e fechava toda hora, tirando e colocando os dinheiros. Mas eu tinha uma amiga que teimava em querer brincar de casinha. Ok, sou democrática. Brincávamos de trilionárias (triplo de milionárias) usando os sapatos de salto alto da mãe dela. Lembro de uma vez que a gente brigou porque ela estava cansada de ser trilionária, queria ser só milionária, mas eu não aceitei essa decadência. Trocar os sapatos de salto alto da mãe dela por panelinhas? Sem chance. Acho que acabei contratando ela como minha cozinheira, e resolvemos o impasse. Democracia, sempre ela.

Minha mãe conta que certa vez, vendo a minha brancura quase esverdeada, me obrigou a brincar na varanda para pegar um pouco de sol. Eu fiz um dramalhão e fui aos prantos. Ela só ouviu lá de dentro quando alguém na rua perguntou porque eu estava chorando, e eu, entre berros e soluços respondi: Proque minha mãe me expulsou de casa!

Aos 15 anos já era adulta e, como tal, estava preocupadíssima com o meu futuro. Nós éramos muito pobres e a cidade era Natal/RN. Decidi que a única salvação pra minha vida era entrar para o CEFET. Se isso não acontecesse, estaria fadada a ser atendente de botequim até morrer. Foi nessa neura que desenvolvi uma gastrite, aos 15 anos. No dia da prova do CEFET, lá fui eu aos prantos como a menina expulsa de casa na varanda.

Aos 19 anos, já terminando o CEFET, toda a grana que eu ganhava no estágio ia para pagar o pré-vestibular e pra terminar de construir uma casa pros meus pais, já no Rio de Janeiro. Não podia me dar ao luxo de perder tempo sendo reprovada no vestibular. Então, escolhi o curso com a relação candidato-vaga mais aceitável dentro da minha área de interesse: Ciências Sociais na UFF virou minha tábua de salvação. Lá fui eu prestar o vestibular aos prantos como a menina expulsa de casa na varanda.

Acontece que agora, aos 31 anos, me enchi do meu lado negro da força, e quero largar o Estado. Mas estou muito preocupada com a aposentadoria. Preciso encontrar uma composição de rendas que me sustentem dignamente quando eu tiver 80 anos. Passei essa noite preocupada, com medo de acabar a vida num depósito de velhinhos.

Agora me diz: tem cabimento a pessoa passar a vida assim, sofrendo com 30, 50 anos de antecipação?

2 Respostas para “Terapia em blog

  1. Adoro suas narrações contando sua vida de Maria do Bairro. Acho que te dá uma humanidade que a gente não enxerga no dia a dia, rs…
    E pára de sofrer, que vc já é ryca e linda e vai morrer no seu casarão nas Laranjeiras.😛

  2. gosto tanto qdo vcs se mostram tão pirados qto eu! (eu to virando uma dessas pessoas egoístas, que mesmo em meio ao dilema alheio, dá um jeito de falar de si mesmo, percebeu?).

    a resposta pra essa questão é mais complexa, vc sabe. Não é só se sentir tranquila com essa escolha, tem a questão da aprovação e, por isso, essa busca pelo plano B. Não condeno, acho lindo essa parceria.

    Ah, e não fica preocupada com a velhice, qq coisa eu te contrato de secretária amiga! (deixa eu fingir que posso/poderei, larga de ser mala).

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