Carnaval fora de época e de lugar

Sim, tem como “pedir pra sair” de um resort em Angra dos Reis. Isso acontece quando você está no lugar certo na hora errada, com a roupa errada e fazendo coisa de jerico.

Desde que a minha empresa inventou de ser muderna, vem fazendo esses eventos motivacionais em que a gente fica confinado em algum lugar paradisíaco brincando de big brother. Só que sem o prêmio do final, claro. A ideia é “energizar” a equipe, mas o efeito é fazer a gente querer enterrar a cara num buraco e não tirar nunca mais. E não venha me chamar de dramática. Vê aí se você também não procuraria um buraco.

A gente chega lá no paraíso e tem logo que colocar a camiseta do evento. Daí, ficou aquele monte de jerico vestido de vermelho no primeiro dia, de verde no segundo e de azul no terceiro. Os hóspedes circulando lindamente com seus trajes náuticos, e a gente parecendo os smurfs. Acrescente a essa perda de dignidade, uma seqüência de palestras tão interessantes quanto a missa do galo. Vergonha e tédio. Mas calma que tem mais. Depois disso, veio a famigerada dinâmica motivacional, que consistia em fazer-nos desfilar pelo hotel batucando, cantando, dançando e dando gritos de guerra sob o olhar aterrorizado dos demais hóspedes e funcionários do hotel. Tudo isso trajando, além das camisetas de smurfs, apetrechos de papel crepom, cartolina e plumas, supostamente carnavalescos. Em teoria, a proposta era montarmos uma escola de samba, embutindo nesse processo todas aquelas filosofias de botequim sobre trabalho em equipe, comprometimento com os resultados, e blá blá blá. Na verdade, não cheguei a ver essa tragédia dos trópicos. Precisamente nessa hora, fui acometida por uma enxaqueca e consegui me esgueirar entre a multidão e fugir pro quarto. Nem acendi a luz, temendo ser descoberta, e passei o resto da tarde lendo no escuro, e dormindo. Essa descrição baseia-se no relato de um informante, e nos ruídos que pude ouvir do meu quarto.

Ainda bem que sempre tem o bloco dos sem noção. Aquela galera que veste a camisa, sabe? Ok, eu tive que vestir a camisa, mas só no sentido literal. Agora tem gente que se empolga, que curte, vibra, bate no peito e vai lá pagar um king kong amarradão. São os pró-ativos. Admiro muito essa gente. Graças a elas, o meu sumiço passou despercebido.

Enfim, na sexta-feira maridão chegou para me resgatar em seu cavalo branco. Aliás, o cavalo branco consistia num carro alugado, porque não podemos viajar no carro do marido. É que documentação e manutenção em dia, seguro, alarme, isso é para os fracos. Marido é Chuck Norris. Ignora multas, IPVA, vistoria. Só quita as dívidas quando é rebocado. E se roubarem o carro, é bom que levam as dívidas junto. Simples assim. Então, viajar de carro alugado nos permite ficar à margem do sistema. Irônico é que até pra fugir do sistema tem que pagar. Como diz Capitão Nascimento, o sistema é foda, parceiro.

E segui viagem com marido feliz da vida, livre de camisetas e dinâmicas de grupo.

E o carro enguiçou em Paraty.

Continua no próximo capítulo.

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