A mulher bambu

A gente logo vê quando o fundo do poço chegou. Nesse domingo, eu vi uma coisa chamada “mulher bambu”. E quando se passa por uma experiência assim, é inevitável pensar: a que ponto eu cheguei…

Era uma mulher que dançava pra lá e pra cá. Não fazia nenhum contorcionismo, malabarismo, nadinha mesmo. Eu até esperei, porque certamente alguma coisa incrível aconteceria, aquela mulher sairia voando, soltaria fogos pelas orelhas, sei lá. Afinal, ela estava na Globo, né? Mas nada. O tempo foi passando, passando, e ela só balançava os bracinhos. Como eu pude descer tanto pra assistir isso, Senhor?

Pois bem, tudo começou quando eu inventei de travar uma guerra insana contra as televisões por assinatura. É que na minha tabela de conversão de valores, dentre tantos critérios, um deles é o de não pagar por serviços que eu posso ter de graça. Então, não compro jornais nem revistas, porque tem tudo de graça na internet. Com tantos blogs de culinária, livro de receitas nem pensar. Por mim, a indústria fonográfica vai pro ralo depois que a gente conseguiu baixar as músicas direto da internet. E por aí vai. Nada de sentimentalismos nem discursos éticos. Se é de graça, tá valendo.

Não lembro mais quando foi que inventaram essa tal de TV por assinatura. Só sei que no meu tempo, a gente ligava a televisão e estava tudo lá de graça. Até algum gênio do mal inventar um negócio que funciona assim: você paga pra assistir a televisão da sua casa, no sofá da sua casa, comendo a pipoca que você teve o trabalho de fazer. Comigo não, violão. Maridão providenciou um arsenal com mais de dois mil DVDs, e declaramos nossa independência da TV por assinatura. A gente só paga pra ver filme se for no cinema. E seguimos nossa vidinha, assistindo os nossos filmes, na nossa TV, na nossa casa, de graça como sempre foi.

Até que inventaram a TV digital e, misteriosamente, a imagem da minha TV ficou uma bosta. Na casa dos meus pais aconteceu o mesmo. Impossível ver televisão. Jornal Nacional, novela das nove, CQC, tudo uma bosta. Eu bem que avisei pra minha mãe que isso era um complô do Roberto Marinho, com o FMI e a OTAN pra nos obrigar a pagar uma TV por assinatura. Mas eles sucumbiram e assinaram SKY.

Pois bem, rodei a baiana. Comprei uma televisão nova modernona, comprei uma antena digital da Philips, e declarei a minha independência das TVs por assinatura. Estava me achando, até descobrir que o sinal digital só pega quando quer. Nesse final de semana, o sinal digital travou bem na hora dos pênaltis do FalxFlu, e eu quase tive um filho lilás. Voltei pro velho sinal analógico às pressas, e assisti o final dos pênaltis numa imagem que nem dava pra ver se a bola tinha entrado ou não. Mas não me dei por vencida. Troquei a novela das nove pelo CSI, porque o sinal da Record é melhor que o da Globo. Adeus Jornal Nacional, o jornal da Band pega melhor. Enfim, saí substituindo os programas conforme o bel sabor do sinal digital, sem ressentimentos. Nessa cruzada, assisto qualquer coisa, desde que esteja aquela imagem bonitona do sinal digital, de graça.

Até que nesse domingo fatídico, como um complô digital, nada pegava, exceto a Globo, bem na hora do Faustão, bem na hora da “mulher bambu”. E foi assim que eu vi o fim dos tempos, com uma imagem de cinema…

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