O Toque de Midas

De todos os dons artísticos, o que eu mais invejo é o de fazer dinheiro. Tudo bem que tocar algum instrumento musical também deve ser interessante, mas fazer brotar dinheiro na conta das formas mais variadas e livres de impostos… caramba, isso é mágico!

O meu dinheiro surge sempre do mesmo jeito, na mesma quantidade, no mesmo lugar, na mesma data e em troca da mesma coisa: horas e horas de confinamento enquanto o sol nasce e se põe lá fora. E antes que digam que eu saio do trabalho com o sol ainda no céu, vou logo lembrando: tenho dois empregos, alôú!  Fixos, ainda por cima… Tudo pela aposentadoria. Putz, uma vida inteira em troca de uma velhice tranquila. Ok, ok, estou dramatizando. Devem ser os hormônios.

Mas, voltando ao dom de fazer dinheiro, vi acontecer debaixo do meu nariz algumas vezes, e fiquei besta. Há mil anos atrás, eu acompanhava o blog de uma garota de programa. Me amarrava em ler sobre a rotina dela. Horas e horas de trabalho alienado igual a tanta gente, só que eu um departamento mais “personalizado”, eu diria. De repente, pimba! Ela lançou produtinhos na internet, livro, filme, e pá: Bruna Surfistinha!

Depois, meio que por acaso, como tudo nesse mundo virtual, uma mulher vive um drama pessoal e, como catarse, faz um blog no qual vai vivendo um dia de cada vez a partir da escolha primorosa de cada roupa. Pronto, quem nunca hoje foi assim?

A cada dia aparece um blogueiro virando profissa, e os exemplos vão pipocando tanto que já estão chegando perto de mim. Tenho um amigo que vai virar magnata da internet, tenho certeza. Ele tem o toque de Midas. Tudo o que escreve vira dinheiro. E tax free ainda por cima! Ele esbarra no teclado e tcha-ram: vira capa do yahoo, uol, sei lá. Acho lindo isso. É uma alquimia! Dane-se que Midas se ferrou na mitologia. Na vida real, a cigarra se dá bem e a formiga manda o La Fontaine ir pastar.

Mas não é só na internet que essas coisas acontecem não. Na rua onde eu morava há uns dez anos atrás, num subúrbio longínquo, tinha um carrinho de cachorro-quente na esquina. Era o carrinho do Marcelo, que ficava na porta da casa dele. Daí, o movimento foi crescendo e o cardápio também. Primeiro foi o cachorro-quente que começou a ter um mundo de coisas dentro. Depois, foi o cardápio que passou a ter uma variedade de sanduíches, todos começando por x, até chegar no x-tudo.  O carrinho ficou pequeno e o Marcelo passou para um puxadinho na frente de casa. O puxadinho foi ficando incrementado até virar uma lanchonete, e o Marcelo, de camelô virou empresário! In-crí-vel. Melhor do que depoimento de ex-presidiário que aceita Jesus. Aliás, se fazer dinheiro fosse religião, eu me convertia.

Maridão, que não gosta pouco de dinheiro, fica siderado com essas histórias. Quer porque quer que a gente dê um jeito de virar magnata de alguma coisa. Mas não adianta, filho. A gente nasceu pra colecionar contracheques e impostos retidos na fonte.

Arte? Só a de fazer poupança.

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