A idade me fez intolerante com desconfortos

Antigamente, eu aguentava um dia inteiro com o sapato me esfolando o pé só porque o danado era bonito. Machucava mesmo, mas eu nem ligava.  E ainda achava chatérrimo o papo da minha mãe sobre a importância do conforto. Achava que era coisa de gente velha e brega. Conforto é para os fracos, pensava a Chuck Norris aqui.  Já cheguei a ficar meses com o dedão dormente por causa de quatro dias que passei com um scarpin barato me apertando o pé.

Lá pelos 15 anos de idade, fui recepcionista num evento e aquele era o meu único sapato bonito. Era um desses modelos de scarpin ordinários, com material de segunda e design que ignora completamente que o pé humano nele introduzido deverá sustentar uma postura bípede. Passei aqueles quatro dias sorrindo cortesmente para os convidados, enquanto meus dedões gangrenavam. E pasmem, era trabalho voluntário! É, juventude tem dessas coisas. Quando o evento acabou, e meus calcanhares voltaram a tocar o chão, meus dedões pareciam não fazer mais parte de mim. Eu apertava, beliscava, e nada. E fiquei tanto tempo assim, que nem lembro quando voltei a senti-los. Mas foram meses. Tempos depois, minha família se mudou de Natal de volta para o Rio de Janeiro e eu ainda não tinha dedos. Agora, enquanto estou digitando, até dei uma parada só pra conferir. É, eles estão aqui comigo sim, meus dedões.

Hoje passo batido pelas prateleiras mais lindas das sapatarias, repletas de modelos que nos deixam com os calcanhares a léguas de distância do chão.  Às vezes eu ainda me traio e acabo comprando uma dessas belezuras. Mas quando resolvo usar, sempre levo uma sapatilha na bolsa, just in case.   E é batata. No fim do dia, quem volta pra casa dentro da bolsa é o belo salto. Benditas sejam as sapatilhas.

Não é que eu tenha me tornado uma fracota não, hein! Simplesmente, realizei que o público não merece o meu sacrifício. Colegas de trabalho, clientes, o guarda do metrô? Maridão então, nem se fala. Já me olha como se eu fosse uma selvagem dessas tribos que mutilam o corpo toda vez que se depara com os ferrinhos do meu soutien. Saltos definitivamente não o seduzem. Enfim, é um sacrifício vão. A não ser que eu fosse uma dominatrix e os saltos fossem minha ferramenta de trabalho.

Em breve, uma seleção de belos saltos vão para o brechó OBG, para mulheres corajosas que gostam de viver nas alturas. A Chuck Norris aqui está pendurando as chuteiras.

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