André e Lilian

O André eu não lembro direito se era André ou Alex. Mas da Lilian eu nunca vou esquecer. Lilian, eu sei tudo da sua vida, amiga. O André não falava de outra coisa. Na verdade, não era bem ele, eram os outros três que não mudavam o disco. O assunto era você.

Naquele domingo eu estava especialmente feliz, porque não é todo fim de semana que eu consigo chegar na praia cedo assim. A areia era toda minha. Minha e dos pombos. Fiquei lá estirada, chapéu de palha cobrindo o rosto (pra minha mancha não aumentar), ouvindo o barulho da água. Ah, e dos aviões a cada 15 minutos.

Foi aí que eles chegaram. Primeiro era só o André e um amigo tagarela. Instalaram o guarda-sol a uns dois metros da minha canga. Com tanta praia disponível, resolveram parar justamente ali. E não era pra me paquerar não. Acho que nem notaram a minha presença. Aliás, eles estavam falando tanto, que acho que não notaram nem o mar, nem o Pão de Açucar. E era um falar afetado, exagerado e ligeiramente revoltado. O amigo tagarela estava fazendo uma espécie de defesa da solteirisse. (Leia fazendo beicinho e franzindo a testa)

“Cara, eu tô num momento egoísta mesmo, sabe? Não que eu não esteja comendo ninguém, até porque não sou padre. Mas toda aquela embromação de pagar cineminha, ficar ligando e tal. Não tô com saco pra isso não.”

“Cara, mulher vem com um pacote. Tipo um bolsa família. É o bolsa família social. Você tem que ficar fazendo social com a família dela todo fim de semana. Churrasco em São João de Meriti é um inferno! É que mulher é muito ligada em família. Mas não é pela família, é pela sociedade. Elas querem dar satisfação pra sociedade, então ficam te obrigando a ir nos churrascos da família que é pra prima ver, pra tia ver, tudo pela sociedade!”


“Se você dá um beijo todo dia antes de sair, e num dia você não der, aí pronto, lá vem a falação, que você mudou, que a gente tem que conversar, que tem alguma coisa errada. Não tem jeito cara, todas as mulheres são assim. To-das!”


A essa altura eu levantei e fui até a água. Como aquele menino falava! Dei um tempinho na água imaginando que na volta o papo seria outro, né? E seria até curioso dar uma de espiã do universo masculino. Eu estava até curiosa pra saber o que os homens falam quando não tem mulher por perto. Mas putz, enjoei do universo masculino em 15 minutos.  Não só enjoei como comecei a me irritam mesmo. Chegaram outros dois, e foi aí que você entrou na história, Lilian. Pelo o que percebi, era um bando de nerds encalhados. Ficaram todos discutindo a relação do André com você, amiga. Mas o André também é fogo, hein? Não te poupou não, filha. Se os caras desciam o pau, o André só ajudava.

Tinha um que era o conciliador. Ficava mandando o André tem uma conversa com você. Uma conversa definitiva. Era pra te enquadrar mesmo. Mas o André só reclamava. Você não vai à praia com ele, você acha que ele tem vergonha de você por causa da diferença de idade, você não educou direito os seus filhos. Principalmente o Neto. Lilian, o Neto é um bosta, hein? Com 28 anos na cara e não quer nada da vida. Até o celular dele é no seu nome porque o dele está sujo! Que coisa… Aliás, o André disse que não vai com você no Barrashopping pra pagar a dívida de R$800,00 que o Neto fez nesse celular não, viu? O amigo conciliador bem que tentou ajudar. Disse que era pra ele aproveitar essa saída de vocês no shopping pra propor um cineminha e dar uma apaziguada na coisa. Mas o André descartou na hora. Disse que você só topa programas quando sãos os seus filhos que querem. Tudo que ele te chama pra fazer, você inventa uma desculpa e mela a parada. Confesso que nessa ficou difícil te defender, amiga. Mas você ganhou uns pontinhos na parte da faculdade. Os amigos dele concordam com você. O André tem mesmo que tomar vergonha na cara e fazer uma faculdade. Mas a sua vantagem ficou por aí. O resto, foi só malhação do judas, ou melhor, da Lilian.

Daí, o André engrenou um assunto de dinheiro. Agora vocês estão no apart, mas quando forem pro Cores da Lapa, o negócio vai feder. Tudo por culpa do Neto, claro. Ele ficou de pagar a faxineira, mas é claro que vai dar cano. E você é que vai acabar cobrindo os furos do filhão. Isso sem contar que o André está pau da vida, porque a conta telefônica é com ele, mas o Neto gaste demais.

O primeiro tagarela, aquele que estava fazendo a defesa da solteirisse, citou o exemplo dele. Quando o namoro dele com a Juliana estava agonizante, eles fizeram uma última tentativa desesperada pra salvar a relação: terapia de casal. Cristo, como esses garotos jogam dinheiro fora! A psicóloga mandou que eles listassem todos os pontos positivos e negativos da relação, e trouxessem a lista na semana seguinte. Pois bem, na lista do tagarela tinham cinco pontos positivos e uma bíblia inteira de pontos negativos. Aí o pau comeu no consultório mesmo. A Juliana ficou ofendidíssima e o namoro acabou ali. Muito eficiente essa terapia. Ele recomendou ao André. Aliás, foi nessa parte que o andré resolveu ensaiar uma lista dessas de cabeça ali com os amigos. Nos pontos positivos ele ficou gaguejando e não saía nada, amiga! Um amigo citou “sexo”, e sabe o que o filho da mãe do André falou? Que nem é lá essas coisas!

Agora me diga, Lilian, o que você está fazendo com esse fedelho? Você ganha muito mais que ele, é uma mulher independente, está prestes a se mudar pro Cores da Lapa, pra que ficar com esse bosta? Aliás, dois bostas, o seu namorado e o seu filho. Eu, se fosse você, despachava os dois e ficava com o coroa que estava do outro lado da minha canga. Ah, não te falei dele, né?

Então, quando o assunto já estava me dando cólicas, eu virava pro outro lado e ficava olhando um senhor. Sentado numa cadeira, sem guarda-sol, muito bronzeado, magro, com uma tatuagem no braço, lendo um livro. Enquanto aquelas quatro matracas passavam a manhã inteira reclamando das mulheres, lá estava ele, completamente absorto em sua leitura. Traquilão. A imagem da paz. São as vantagens da idade, amiga. Maturidade. Enquanto os jovens se debatem em problemas existenciais, o sol nasce, se põe, e eles não vêem. Não sabem a beleza que é isso.

Se estiver interessada em respirar novos ares, amiga, ele está lá. Praia do Flamengo, altura da rua Paissandu.

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2 Respostas para “André e Lilian

  1. Eu ri tanto aqui!
    Pior, eu tenho essa hábito de ficar na praia ouvindo os outros conversando. As pessoas na praia acham que ninguem mais está ouvindo.
    E, tenho que te falar algo:
    “Sentado numa cadeira, sem guarda-sol, muito bronzeado, magro, com uma tatuagem no braço, lendo um livro” = GAY
    Sorry!

  2. Você é um estraga prazeres, Autor…
    Eu já estava até considerando a possibilidade de acordar cedo e ir perambular ali pelo Flamengo…snif.

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