Carnaval sem viajar, sem ir a blocos, sem assistir desfiles pela TV

Ainda assim, fiz muitas coisas.

Filmes em casa:

- Transformers 1 e 2 - Não me julguem, marido me obrigou. Um monte de latas se engalfinhando do começo ao fim. São robôs que viram carros e eletroportáteis em geral e falam com voz de Cid Moreira. As latas do bem lutam para salvar os humanos e as do mal, para dominar o universo. Recomendo assistir no mudo porque é muito tiro, muita explosão, o pau come, ou melhor, a lataria come numa barulheira só. Ótimo pra enxaqueca.

- O garoto da bicicleta – Triste e bonito. A versão europeia de um menor abandonado problemático. Não é um menor abandonado como conhecemos nos trópicos, resultado de flagelos sociais. Esse é abandonado por opção de um pai que resolve recomeçar a vida do zero, e isso não inclui filhos.

Filmes no cinema:

- O artista – Lindo, lindo, lindo! Não precisa de cor nem de som pra nos fazer rir e chorar do começo ao fim.

- A invenção de Hugo Cabret – Belíssima produção e uma história singela, especialmente bonita pela homenagem à história do cinema. Comecei no 3D em grande estilo.

- A separação – Muito bom, especialmente depois que acaba e a gente começa a juntar as peças. Porque durante o filme, o que mais me interessava era observar o jeito de viver e pensar daquele povo. Depois é que fui pensar na história. O muçulmano radical e estourado não estava tão errado assim, e o árabe ateu ocidentalizado não estava tão certo assim. Mas só depois a ficha foi caindo. Ou eu tenho um retardo.

Além de ver filmes, costurei muito, andei de bicicleta, e costurei mais. Depois posto pra vocês os 1500 passos para fazer coxins para cadeiras.

Esse foi o meu carnaval. Agora vamos descarregar fotinhos de roupas do período a.C. (antes do Carnaval).

1 – blusa MBX, calça Folic, sandália Arezzo, bolsa Maria Bonita;

2 – blusa Sacada, calça MBX, sandália Andarella, a mesma bolsa;

3 – vestido Cribb, sandália Via Mia, a mesma bolsa;

4 – Blusa Sacada, calça e cinto MBX, bolsa Galpão 65, sapatilha que eu não sei o nome da loja;

5 – vestido MBX, sapatilha Afghan, bolsa Corpo&Alma.

Tia Claudia Ensina

Primeiro, você pega uma caixa bem sofrida.

Basta fazer essa zona…

Que a caixa fica assim!

Aprenderam, né?

O que realmente importa

Tem coisas que é melhor escrever pra não esquecer. Ainda mais no meu caso que sofro de perda de memória recente. E antiga também.

Tudo começou com esse post do La cucinetta. Vira e mexe ela publica umas coisas que me fazem pensar. É simples, elementar, mas enquanto ninguém diz, a gente não se toca: que tal simplificar a vida e fazer o que realmente importa? Quanto tempo, espaço e dinheiro eu perco fazendo, acumulando e comprando coisas que simplesmente não importam? Todas as roupas do meu armário são importantes para mim? Idem para os sapatos e bolsas e brincos e tudo. Só não vou estender esse raciocínio para a casa, senão marido enfarta. Mas caramba, quanta tralha. E do que eu faço, o que é realmente importante? Exclua-se daí o que é obrigatório, tipo trabalho. Não estou disposta a mudanças dessa monta. Ademais, marido também enfartaria se eu resolvesse abandonar algum emprego. Ele tem medo que a gente passe fome na velhice. Mas voltemos. Quanta coisa a gente faz por fazer, sem precisar nem querer? Tipo assistir Domingão do Faustão? Se bem que eu já evoluí desse estágio, agora eu assisto Mulheres Ricas. Muito mais edificante.

Matutando sobre isso, descobri a pólvora. Esse ano eu vou:

- gastar meu tempo exercitando o corpo para que as neuras saiam pelos poros;

- gastar meu dinheiro com coisas que se guardam na memória e não no armário;

- me empenhar em ser importante para alguém.

Me aguarde, 2012!

Mulheres ricas

Encontrei ontem esse reality show da Band enquanto zapeava pelos poucos canais que estão pegando o sinal digital lá em casa. Aquele monte de louras num iate gargalhando com suas taças de champanhe nas mãos cheias de anéis logo me prendeu a atenção. Não que eu seja deslumbrada, só devorei o blog da Lala Rudge de uma sentada só.

Com 5 minutos de programa, marido já havia me abandonado na sala e ido pro computador. Fiquei lá sozinha vendo aquela gente rica se jactando da sua riqueza. A certa altura, elas entraram numa loja que não tinha champanhe para oferecer aos clientes. Isso era uma gafe imperdoável. Não há nada que elas façam sem champanhe. Até ao banheiro elas devem ir levando suas taças. O piti foi tamanho, que o gerente acabou trazendo uma garrafa que havia arranjado no shopping para saciá-las. O que a cachaça não faz, né meu povo?

Isso me lembrou um episódio que passei numa loja, só que ao contrário, e foi por isso que comecei a escrever esse post. Foi nos idos anos da faculdade, quando eu era dura feito um coco e trabalhava como estagiscrava no escritório de um engenheiro português muquirana. O escravocrata me mantinha como estagiária mesmo depois de um ano que eu tinha terminado o CEFET. Acabei entrando na UFF e mantendo o jaleco do CEFET pra não pagar a barca, porque nem o dinheiro da passagem ele dava.

No meio do caminho entre as barcas e o campus do Gragoatá, tinha o famigerado Plaza shopping, onde eu acabava fazendo escalas periódicas. Eu passava lá só pra sofrer um pouquinho e, às vezes, garimpar algum preço remarcado da C&A.

Pois bem, devidamente contextualizado o nível da minha pobreza, prossigamos. Numa dessas idas ao shopping, a procura de uma sandália rasteira pra substituir a minha que já estava com o solado quase todo descolado, praticamente um jacaré do Pantanal, distraidamente acabei entrando na Datelli enquanto olhava as vitrines.

A criatura não tinha dinheiro nem pra passagem de ônibus, nunca tinha entrado nem na sonho dos pés. Só me dei conta da gravidade da situação quando o vendedor, depois de me oferecer água e refrigerante, tendo eu recusado ambos, me apareceu com uma balde cheio de gelo e uma garrafa de champanhe! Estranhei a novidade mas, pôia que sou, achei engraçado e só. Tolinha. O vendedor me cercou de caixas, e quando me dei conta, o chão da loja estava tomado por caixas abertas e sandálias espalhadas, e aquele balde de gelo com aquela garrafona chique, tudo pra mim. Aí começou o calafrio.

Até então, discutíamos apenas os modelos. Não dava mais pra segurar, era hora de falar de preços. Procurei a rasteirinha com as tiras mais finas, pois, pela minha lógica, menos couro = menor preço. Mas já de cara me vieram com uma cifra que mais parecia palavrão. Perdi a pose e fui perguntando o preço de todas, uma a uma, até descobrir a mais barata e pronto, comprei.

Saí do shopping em estado de choque e fui direto pra casa do marido, que na época era apenas namorado. Estava em estado catatônico quando marido perguntou o que houve e eu contei que havia acabado de gastar a metade do meu salário numa sandália rasteira simples, só porque me ameaçaram com uma garrafa de champanhe.

Isso foi há dez anos, e ainda lembro o preço: R$ 80,00.

O salário mínimo era R$ 180,00.

Diário da viagem – 8 a 10 de janeiro

Saímos de Gravatal diretamente pra Tubarão. O atrativo da cidade? Uma agência do Itaú. Àquela altura do campeonato, quase zerados de dinheiro vivo e só encontrando agências do BB em todas as cidades por onde passávamos, a indigência nos rondava. Chegamos ao ponto de pagar um almoço abastecendo o carro do dono do restaurante num posto de gasolina que aceitava cartão de débito. Tubarão era a única cidade num raio de 100 km que tinha Itaú.

Recuperada nossa dignidade financeira, fizemos uma escala em Laguna antes de seguir pra Praia do Rosa, só pra ver a casa da Anita Garibaldi. Na entrada da cidade, o quiosque de informações turísticas é muito bem sinalizado. Mas logo entendemos o motivo dessa esmola toda. Eles tentam te empurrar serviço de guia turístico alegando que você pode perder muito tempo se perdendo na cidade até achar os pontos turísticos. Acontece que o centro histórico da cidade, que é o que interessa, é um ovo. Até sem querer você encontra tudo. Aliás, acabei encontrando também essa belezura à venda.

Babei muito nessa casa. Mas voltemos ao que interessa. Essa era a casinha da Anita, e está aberta para visitação:

E fica ao lado da igreja onde ela casou pela primeira vez, aos 13 anos.

Visitamos também essa fonte de água mineral do século XIX lindamente restaurada onde aproveitamos pra encher as nossas garrafinhas. Água como deve ser: de graça.

Pronto, seguimos pra Praia do Rosa. Lugar paradisíaco, mas com infraestrutura caótica, como aliás acontece em praticamente todo o litoral de Santa Catarina. Seguimos pela estradinha principal do lugar, a única com calçamento, na esperança de ver o mar, pra dali escolher uma pousada. Mas a estradinha ziguezagueava e não chegava nunca na praia, até que o asfalto acabava e começava uma pirambeira terrível. Demos meia volta e procuramos a pousada que eu tinha visto na internet.  Já no portão, uma plaquinha avisava que estavam lotados. Teimei e fui até a recepção:

- Oi! Eu li a plaquinha lá fora, mas deve ter alguém saindo, né? Digo, hoje é domingo…

- Não senhora, estamos lotados até o dia 20.

- Mas será o Benedito que esse povo não trabalha segunda-feira?!

- Não, estão todos de férias como a senhora.

Desci a rua batendo em todas as pousadas e a resposta era a mesma. Tudo lotado. E de argentinos ainda por cima! Um absurdo.

Por fim, a léguas de distância da praia, encontramos um camping que tinha uns quartos, e um estava vazio. 30 reais por pessoa. Marido foi logo se animando. O lugar parecia uma república dessas de estudantes, só que de surfistas. Aliás, depois percebemos que a praia do Rosa é território de surfistas. Foi quase um turismo etnográfico. Olha só:

- A religião dos surfistas.

- Na cozinha coletiva do camping, ao invés do clássico “proibido fumar”, o aviso era esse:

A propósito, sobre essa cozinha coletiva, tenho a dizer que a defesa civil interditaria o local se o visse. Tive a infeliz curiosidade de abrir uma panela que estava sobre o fogão. Ali jazia um macarrão azul. Se a gente come macarrão ao funghi, surfista deve comer macarrão ao mofo mesmo.  Me animei com uma sanduicheira que vi na prateleira, mas ao abri-la, me deparei com fósseis de queijo que devem datar do período paleolítico. Mas voltemos aos demais aspectos da vida dos surfistas.

- Como não podia faltar em todo lugar “alternativo”, no nosso camping tinha também aquelas tiras que os hippies adoram esticar entre duas árvores pra ficar andando em cima. Aproveitei a incursão nesse universo paralelo pra fazer as minhas honrosas tentativas:

A essa altura, já totalmente integrada ao habitat, fui apreciar a culinária surfista. Comemos numa pizzaria muito boa, bem chiquezinha, porque os surfistas também sabem ser chiques. Aliás, tem muito restaurante com carinha de chique na Praia do Rosa. O rapaz que nos atendeu, com cara de surfista, explicou as ‘energias” da pizza. Ele faz uma massa integral que leva até semente de linhaça. Os sabores incluem abobrinha, berinjela, gergelim, rúcula e outros que eu não lembro. Sobre as mesas, ao invés de mostarda, catchup e outras porcarias que o povo adora colocar na pizza, o que tinha eram raminhos de alecrim, manjericão, sálvia, alfazema, tudo fresquinho espetado em vidros de água, pra ser colocado na pizza como tempero. Quando veio a nossa pizza, observei que a cor do molho de tomate estava diferente, parecia cor de beterraba. Pronto, eu tinha acabado de descobrir o segredo do molho de tomate deles.

Os surfistas têm um fuso horário próprio. Acordei às 5h da manhã com a barulheira deles se preparando para irem à praia. A praia, aliás, é um capítulo à parte. Nós estávamos há quase meia hora a pé da praia. Na verdade, depois de 10 minutos de caminhada você já está rente ao mar, ouve até o barulho das ondas. Mas, como eu disse, o litoral de Santa Catarina é de uma urbanização caótica. As pousadas se proliferaram livremente na areia da praia, impedindo a passagem. Daí, é preciso caminhar mais uns 20 minutos até que surja uma brecha no paredão de pousadas que nos permita alcançar o mar. Ah, o mar, um bálsamo depois do calvário. Portanto, fica a dica. Se você for à Praia do Rosa, verifique se a sua pousada tem trilha própria para a praia, porque em Santa Catarina é assim, o acesso às praias é privatizado.

Próxima parada, de volta à base, em Curitiba, porque já cansamos dessa vida andarilha.

Diário da viagem – 07 e 08 de janeiro

O negócio em Gravatal era a tal das águas termais e a comida liberada, porque o hotel era com pensão completa. Então, o plano era comer e ir pra piscina, e comer mais e ir pra piscina de novo. A cidade tem cara de Barra da Tijuca só que sem praia, ou seja, não salva nada.

Assim que chegamos no hotel, como não estava na hora de nenhuma comida, fui direto pra piscina. Passei uns 15 minutos naquela aguinha morna e já deu. Ainda mais que tinha criança. Um monte delas. Como crianças fazem barulho, não? Voltamos pro quarto e resolvemos esperar a comida. No dia seguinte, tratamos de fazer um reconhecimento das cidades vizinhas. Encaramos uma estradinha de terra até Vargem do Cedro, um vilarejo lindo de colonização alemã no meio do nada, que eu não tirei nenhuma foto porque não levei máquina. Na volta, vi uma plaquinha que dizia “águas termais” apontando pro meio do mato. Convenci marido a pegarmos aquele caminho pra ver uma fonte de água termal in natura.  Nos perdemos no meio de tantos caminhos de terra entre vários sítios, pedimos informação aqui e acolá, e acabamos chegando a mais um hotel de águas termais no meio do mato. Resumo da ópera, marido ficou possesso, pra variar, dizendo que só meto ele em furada, e eu descobri que em Gravatal não tem mais nenhuma fonte de água termal livre da especulação comercial. Todas foram devidamente canalizadas para os hotéis.

Depois do almoço, partimos pra Serra do Rio do Rastro, essa sim com foto:

Depois do batismo de fogo que passamos na serra do Corvo Branco, achei essa serra molezinha, brincadeira de criança. A gente faz todo o zig-zag da subida em segurança, com tudo calçado, iluminado, com muretas de proteção e mirantes por todo o trajeto. Só não tem ângulo pra fazer uma foto digna.

E a energia desses postes verdes da foto acima vem do parque eólico que tem lá no alto, a cerca de 1.500m de altitude.

E lá no alto tem também esses cavalinhos pastando na beira do abismo.

Por fim, voltamos pro hotel, comemos como se não houvesse amanhã, tentamos novamente ir na piscina, mas estava lotada, e colocamos o pé na estrada. Adeus, Gravatal.

Próxima parada, Praia do Rosa.

Diário da viagem – 04 a 06 de janeiro

Saímos da estrada para Urubici e pegamos um caminho de terra que dava na primeira pousada do caminho. A ideia era fazer uma pesquisa de preços. 800m adiante na última curva do caminho de terra, nos deparamos com isso:

Marido queria dar meia volta dali mesmo:

- Isso deve ser caro! Não é pro nosso bico. Vamos embora.

Mas eu insisti que era SÓ perguntar o preço sem compromisso. Qualquer coisa, a gente dava meia volta e seguia pro centro da cidade. Ok, convenci o tio patinhas, mas ele ficou dentro do carro enquanto eu entrava na pousada. A menina da recepção falou as palavras mágicas:

- Estamos com uma promoção de 50%  de desconto no valor da diária para os dias de semana.

Yes! Ficaríamos só de quarta a sexta-feira mesmo. Aí veio a outra parte da história:

- Estamos lotados, só tem a suíte panorâmica livre.

Então era 50% de desconto, só que no quarto mais caro. Mas ainda assim, era um desconto que não podia ser desprezado. Voltei pro carro e comecei o trabalho de convencimento com o tio patinhas.

-  A gente trabalha pra caramba, temos um monte de empregos, e tudo isso pra quê? Pra ficar mandando filhos pra Inglaterra enquanto economizamos centavos em pousadinhas de Santa Catarina!

Ok, confesso que apelei, mas deu certo. E quando entramos na tal suíte panorâmica, a vista se encarregou do resto. Maridão não reclamou mais.

O única detalhe é que era tudo coral dentro do quarto. O decorador deve gostar de tudo combinandinho, porque a cortina era coral, parede coral, colcha e almofadas coral, tapete coral, abajur coral, tudo coral! Ainda assim, a vista compensava todo o resto. Passei muito tempo plasmada olhando a paisagem e os insetos que batiam na parede de vidro.

Urubici foi um bálsamo. Não tirei fotinhos de tudo o que vi porque esqueci a máquina na pousada, mas foi até melhor. Esse negócio de ficar se preocupando em fotografar corta um pouco o barato das coisas, eu acho.

Decidimos ir embora pela serra do Corvo Branco, porque corta caminho até Gravatal, e a serra em si também era uma atração a ser vista. No caminho pra serra, fizemos um desvio pra ir ver a pedra  furada, que fica no ponto mais alto habitado do país. Na verdade, é habitado porque tem o Cindacta II lá em cima. O dia estava claro e quente, mas lá o vento era muito forte e gelado. minhas mãos ficaram dormentes só de segurar a máquina pra fazer as fotos. E eu ficava de pé precariamente, porque o frio era tão cortante que eu me dobrava ao meio.

Esse é o Cindacta II.

E essa é a Pedra Furada, localizada na montanha ao lado.

Depois veio a famigerada descida da serra do Corvo Branco. Marido já estava reclamando da estradinha de terra que pegamos pra chegar lá, e não queria descer a serra. Mas quando chegamos no começo da famosa descida, tinha um outro casal de Celta que ia descer também. Aí virou questão de honra. Se eles podem, a gente também pode. E lá fomos nós atrás do celtinha.

E essa aqui embaixo foi a última curva civilizada, com calçamento, acostamento e guard rail. Daí por diante, foi uma pirambeira sinistra. Uma descida muito íngreme, muito estreita, de chão batido, lama e pedras, com curvas de 180° muito fechadas e com alguns trechos sem nenhuma proteção para o penhasco. Achei que íamos rolar ribanceira abaixo. Maridão estava bufando de raiva, e eu parei de tirar fotos. Parei de respirar também.

Dramas à parte, foi a parte mais linda da viagem até agora. Depois disso, pegamos uma estradinha de terra por mais 30km, passando por vários pequenos vilarejos cheios daquelas casinhas de madeira com muitas flores na frente e hortas no quintal.

Próxima parada: Termas de Gravatal.

Obs: A pousada em Urubici era essa.

Diário da viagem – 03 de janeiro

O diário dessa viagem está começando hoje porque só agora me recuperei da sequência de achaques que começou com a garganta ardendo, depois tosse, gripe, sinusite, enxaqueca e dor da barriga. Até ontem, o meu turismo foi por todas as farmácias de Curitiba e Joinville. Mas agora estou ótima.

Hoje eu tomei café-da-manhã em Blumenau, almocei em Brusque e jantei em Tijucas.

Blumenau: seguindo a indicação de um taxista, encontramos uma pousada bem bonitinha, construída em enchaimel original, bem diferente daquele monte de fakes que se vê pela cidade. Mas a parte ruim veio no dia seguinte: o café-da-manhã era uma bomba. Pão frencês duro, de frios só queijo prato e presunto e o suco de laranja era uma vergonha, aguado e melado. Aliás, pedi um suco de abacaxi num restaurante e me serviram o mesmo refresco aguado e melado, só o preço era de suco de verdade. Mas passemos ao lado bom da cidade, pra não me chamarem de ranzinza. O mais legal foi a visita ao museu da Glass Park, onde eles mostram o processo de fabricação dos cristais. Tudo bem que eu não pude ver demonstração nenhuma porque resolvi visitar a fábrica justamente no último dia das férias coletivas dos funcionários. Enfim, pelo menos passeei no museu e vi o todo processo por fotinhos e desenhos nas paredes. E aproveitei pra comprar coisinhas. Tem até cristal de Murano feito aqui mesmo no Brasil, mais precisamente ali naquela fábrica. Fantástico.

Brusque: Passei de passagem. Parei na cidade só pra comer. Mas deu pra ver a pujança da indústria têxtil local. A cidade parece ter mais fábricas de tecidos do que habitantes. Na saída de lá, passei por outras cidades, cada uma mais rica que a outra. A cidade seguinte era um polo de calçados. Até parei numa loja de fábrica que ficava à beira da estrada. A loja era bonitona, chique, e os sapatos eram bem estilosos também. Os caras sabem fazer as coisas. Mas não comprei nada não, porque sou comedida. Depois veio uma cidade produtora de cerâmicas, outra de hortaliças, e por aí vai. É um interior muito rico esse de Santa Catarina.

Tijucas: Já no final do dia, tínhamos que parar em qualquer lugar porque marido estava cansado de dirigir e o fominha não queria dividir o volante comigo. Resultado, fomos parar na praia mais feia de Santa Catarina, quiçá do Brasil. Desculpa aí galera de Tijucas, mas ô lugar feio, hein! É mais feio que Sepetiba. Aliás, depois da obra, Sepetiba nem é mais feia, se vocês querem saber.

Tijucas é uma cidade invertida. Começa pelo fato da BR 101 passar por cima dela ao invés de cortá-la como acontece com todas as outras cidades. Parece que um figurão da família mais tradicional da cidade conseguiu alterar o projeto da BR 101 fazendo com que a rodovia não cortasse a cidade e sim se elevasse sobre ela. O resultado foi um viaduto de cerca de 600m sobre a cidade, de ponta a ponta. Até aí, ok. O mais curioso é que a cidade começa toda bonitinha perto da BR, com ruas largas, casas bonitas, praças, tudo arrumadinho, e vai favelizando à medida que se aproxima do mar! Nas ruas próximas à beira mar, o calçamento some e o que se vê é uma terra horrorosa, tipo praia de Santos. As casas vão virando casebres e a favela se instala rente ao mar. Se bem que não tem um “rente” ao mar, porque  o mar mesmo só se vê no horizonte. Até lá, é uma faixa de lama infinita.

Mas passemos para a nova pousada arranjada também na base do improviso. Era um hotel tipo esses de beira de estrada de filmes americanos, com aquela fileira de quartos térreos que dão prum pátio a céu aberto. O hotel ficava quase em baixo do viaduto da BR 101. ou seja, dormimos com um trânsito super light sobre as nossas cabeças. Mas tudo bem, o quarto tinha ar condicionado, era só fechar a janela. Foi o que fizemos, quando fomos surpreendidos por um marimbondo gigante! Saí correndo pelo pátio aos berros enquanto marido desferia golpes de toalha pelo ar, distribuindo toalhadas pelas paredes. Resolvido isso, foi a vez das cinzas de cigarros que empesteavam o quarto. Portato, janela aberta significava barulho de trânsito, e janela fechada, catinga de cigarro. Escolhemos o silêncio fedorento e ligamos o ventilador, porque a vida é feita de escolhas. No banheiro, fui supreendida por um sabonete usado, provavelmente pelo último hóspede, que ainda apresentava até os fios de cabelo do sujeito. Era o fundo do poço. Na hora de dormir, fiquei assistindo televisão até mais tarde quando comecei a ouvir barulhos de móveis sendo arrastados no quarto ao lado. Depois ouvi passos no pátio externo. Juro, comecei a suar frio pensando naqueles de filmes de suspense americanos que sempre tem cenas de assassinato em quartos de hotéis exatamente como esse. Levantei, me certifiquei de que a porta estava mesmo trancada e voltei pra cama pensando no filme “Onde os fracos não tem vez”, com Javier Bardem.

Dia seguinte, levantamos acampamento. Destino: Urubici.

Tratamento de canal – notícias do front

Não morri na cadeira do dentista. Morri antes de chegar lá.

A luta pra controlar a fobia foi assim. Pela manhã, era abrir os olhos e imediatamente registrar que existia um canal a ser feito, que não era sonho. E já começava o mantra ”não posso pensar nisso” seguido pelo “vou pensar em outra coisa”. Foi nessa onda que eu terminei meu TCC em 1 semana! O que um canal não faz… A última aula da pós foi no sábado, e na segunda-feira, véspera do canal, eu já estava encaminhando a versão final do TCC pra professora.

Então, ou eu estava fazendo o TCC, ou lendo. Peguei o livro da Ingrid Betancourt, que é um calhamaço, e mandei ver. Eu lia por dever ou por lazer. Era ler pra não ter tempo de pensar. A droga é que a história dela no cativeiro também me deprimia. Mas é melhor ficar triste pela desgraça alheia do que pela nossa. Sentiram o drama? Canal acabou ser promovido à categoria de desgraça. É só deixar que o medo constrói monstros do nada. Um tratamentosinho básico de canal virou o corredor da morte.

Daí, no final da tarde de segunda-feira, véspera do canal, tive que apelar. Já tinha mandado o TCC e só me restava o livro da Ingrid pra tentar me distrair. Não deu. Só pensava no raio do canal. Parti então pro confronto. Comecei a pensar nos dramas de verdade da vida, pra devolver as coisas ao seu tamanho real. Saquei o Gianecchini da manga. Me projetei pro lugar dele. Fiquei pensando em como seria se o que estivesse em questão, ao invés de um tratamento, fosse a minha vida. Viajei nessa parada. Tipo, comparar o medo de um canal com o medo de morrer. Concluí que morrer devia ser bem pior. Concluí também que não ter tido nenhum câncer durante esses 32 anos de vida era uma grande sorte. E tratei de ficar feliz com isso. Beleza, ainda não estava maluca.  O novo mantra então era ” não tenho câncer, não tenho câncer, não tenho câncer”, pra reduzir o canal ao seu real tamanho.

Resultado: sonhei que tinha lupus.

Aviso: Não faça isso em casa. Se você tem uma fobia, procure ajuda. Ficar tentando resolver a parada sozinha dá nisso. Passei a noite toda sonhando com lupus e acordei deprimida porque era o dia do canal. Aliás, por que raios meu subconsciente transformou câncer em lupus?

Enfim, fui pra dentista.

A sala de espera era a pior parte. tentei me concentrar na televisão. Era um programa matinal da Record, desses que tem receitas, reportagens, merchan e os apresentadores ficam batendo papinho entre si. Eles estavam mostrando umas reportagens sobre pessoas que reagiram a assaltos e foram brutalmente assassinadas. Ajudou muito.

A assistente da dentista me chamou. Entrei na salinha, ela me botou um babador, me deu um guardanapo e foi embora, me deixando sentada naquela cadeira de dentista olhando para o teto. Me dei conta que a sala de espera não era a pior parte. A espera dentro da sala da dentista era pior.

A dentista chegou, falou umas coisinhas, super gentil e tal. Disse que ia me aplicar a anestesia, e me explicou como funcionava esse lance de tomar agulhada na boca. Ela foi didática e eu fingi naturalidade. Na hora H senti a picada e tive um espasmo no corpo todo. Fiquei toda dura, retraí as pernas e prendi a respiração esperando ela tirar aquilo de mim. Mas demorava… e demorava… e ela ainda sacudiu a minha bochecha pra espalhar o líquido, e eu não respirava pra não correr o risco de me mexer. Quando ela tirou, eu senti looongamente a agulha saindo. Parecia que tinha uma mangueira enfiada na minha gengiva. Ela perguntou se eu tinha sentido uma dor tão terrível assim, pela reação que eu tive. Expliquei que não, era só o medo acumulado que tinha gerado aquele efeito terremoto no meu corpo, mas que era só coisa da minha cabeça, não foi nada que ela tivesse feito. Batemos papinho por um tempo enquanto esperava fazer efeito. Mas o efeito não passava de um formigamento.

Resultado: vamos aplicar outra anestesia.

Dessa vez eu já sabia o que me esperava. Relaxei o corpo e tentei controlar a ansiedade, pra não dar outro xilique daquele na cadeira. Até que deu certo. Acho que fiquei muito próximo da normalidade. Mas, quando enfim ela começou a trabalhar no meu dente, eu senti umas pontadas de dor.

Resultado: vamos para a terceira anestesia, desta vez dentro do dente!

A essa altura, no meio da desgraceira a gente até relaxa. Vai lá, doutora, manda ver. Já estou hylander nesse negócio. Ela segurou a minha cabeça, e conseguiu até ser carinhosa nessa situação de extremo suplício, e deu a agulhada. Doeu de verdade. Mas ela sabia que dessa vez não era coisa da minha cabeça, e ficou me consolando: “Eu sei que dói mesmo, eu sei… Mas já está terminando e você não vai sentir mais nada”. E ela falava fazendo uma voz fininha, como se eu tivesse 5 anos de idade e como se ela fosse a minha mãe. É como se ela tivesse com pena de mim. E sabe que eu gostei! Me senti acolhida e consolada na minha dor. Completamente louca, eu sei…

Tirando essa parte, o resto do canal foi pinto. Você percebe a pessoa cutucando o seu dente, mas não sente dor nenhuma. Estava tão tensa esperando uma dor iminente, que nem reparei que tinham se passado 50 minutos e eu consegui ficar com a boca aberta todo esse tempo.

Depois ela fechou com um curativo e disse que a gente continua na semana que vem. Sinceramente, preferia ter ficado e resolvido logo tudo, porque a pior parte foi o começo, por causa das anestesias que não pegavam. Não queria passar por isso de novo. Mas pelo menos já sei como é. Segunda-feira que vem, vou relaxar o corpo pra controlar o xilique na hora da agulhada. E não vou fazer exercícios mentais pensando em desgraças maiores. Sou adulta e não preciso desses recursos para lidar com uma coisa tão simples da vida. Acho que vou conseguir passar como uma pessoa normal.

Ah, contei pra vocês? Vou ter que fazer canal em outro dente!

De espadrille na chuva

Primeiro eu não estava dando a mínima pra essa moda de espadrille porque eram todas altas, e de alta já basta a conta telefônica. Foi então que eu vi na sapatela, ou era antonela, ou andarela, enfim, uma dessas elas da vida, uma espadrille rasteirinha. E o melhor, 48 pilas! Comprei na mesma hora, porque gente impulsiva decidida é assim.

Daí que ontem o céu estava azul da cor do céu, e isso pedia uma espadrille, e eu tinha! Que coincidência… Passei o dia toda serelepe com o meu vestido chemise navy e espadrille num tom cru. Modéstia a parte, eu estava a coisa mais chique desse mundo. Mas deixei pra tirar fotinho na volta dos trabalhos, porque já estava muito atrasada. E se esse post está saindo sem fotinho, foi porque um desastre se abateu sobre mim e a minha espadrille nova.

Fui pro trabalho 1, e até aí tudo bem. À noite, lá fui eu pra minha bat missão como professora da nossa querida rede estadual noturna. Um professor faltou, e eu juntei as duas últimas turmas da noite. Então, lá estávamos minha espadrille e eu às 20h encarando a 1001 e a 1002 juntas na mesma sala.

No meio da aula, começou a cair um pé d’água lá fora. Aí começou o dramalhão típico do alunado quando encontra um álibi:

- Professora, está chovendo! Libera aí!

- Por acaso o seu trabalho te libera por causa de chuva? É decretado feriado nacional quando chove? Qual é, galera! Vamos parar com o drama.

- Professora, está chovendo em mim!

- Fecha a janela.

- Mas vai ficar quente!

- Liga o ventilador.

- Minha casa enche!

- Dane-se.

Em qualquer outro dia, eu teria liberado. Querem ir embora? Hasta la vista, babies. Mas desta vez eu precisava desesperadamente salvar minha espadrille. O clima foi ficando tenso, os apelos foram se avolumando, até que uma boa alma sugeriu que eu liberasse aqueles que estavam enchendo o saco. Como eu não pensei nisso antes?

Foi aí que uma aluna se encrespou com um aluno e começou a xingá-lo. Ele era do grupo que ia ficar, e ela do grupo de açúcar que estava indo embora com o álibi da chuva. Daí, a garota ficou em pé na porta da sala, xingando aos berros o garoto que permanecia sentado esperando a aula. E eu no meio, com minha espadrille no pé e aquela chuva colossal lá fora. O que eu fiz? Absolutamente nada. Simulei uma expressão de ultraje pelos impropérios que a menina bradava, enquanto calculava quanto tempo mais aquela chuva ia durar, e se não era melhor afogar logo aquela droga de espadrille no dilúvio e depois comprar outra. A garota tinha um séquito, e eles ficaram debochando de quem ia ficar.

Por fim, foram embora, mas levaram com eles toda a minha disposição junto. A espadrille não valia tanto esforço. Dei mais alguns minutos de aula e aproveitei pra dar umas dicas para a prova da semana que vem, pra compensar aquelas boas almas que queriam aula. Liberei a turma e fui afogar minhas mágoas e minha espadrille na chuva que só foi dar uma trégua quando eu já tinha chegado em casa.

Então gente, essa foi a breve história de vida da minha espadrille.

Tchau pra vocês.